cheirógrafo

Entrei
Um cheiro familiar me levou
Para um alto balcão branco.
Muito alto
Não dava pra ver o outro lado
Mas o cheiro sempre dava um jeito
Porque cheiro viaja torto.
Se eu já tivesse visto antes
Porque os grandes me levantavam
Dava pra ver de novo
Mesmo sem ver.
Fui ver se tinha nas fotos da família
Como fui ver, vi
Vi que tinha as coisas de [...]

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Entrei
Um cheiro familiar me levou
Para um alto balcão branco.

Muito alto
Não dava pra ver o outro lado
Mas o cheiro sempre dava um jeito
Porque cheiro viaja torto.

Se eu já tivesse visto antes
Porque os grandes me levantavam
Dava pra ver de novo
Mesmo sem ver.

Fui ver se tinha nas fotos da família
Como fui ver, vi
Vi que tinha as coisas de ver
Mas nada das coisas de cheirar.

Vou inventar a cheirografia
E virar cheirógrafo.

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3 Comments

  1. tipuri comentou em 20/02/2008 | Permalink

    viciou na cocaina bródi? :)

    saudades docê!!

  2. acuginotti comentou em 21/05/2008 | Permalink

    O fotógrafo

    Difícil fotografar o silêncio. Entretanto tentei. Eu conto:
    Madrugada a minha aldeia estava morta.
    Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
    Eu estava saindo de uma festa. Eram quase quatro da manhã.
    Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
    Preparei minha máquina.
    O silêncio era um carregador?
    Estava carregando o bêbado.
    Fotografei esse carregador.
    Tive outras visões naquela madrugada.
    Preparei minha máquina de novo.
    Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
    Fotografei o perfume.
    Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
    Fotografei a existência dela.
    Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
    Fotografei o perdão.
    Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
    Fotografei sobre. Foi difícil fotografar sobre.
    Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
    Representou para mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
    Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
    Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir a sua noiva.
    A foto saiu legal.

    Manoel de Barros

  3. Ju comentou em 29/05/2008 | Permalink

    “O cheiro viaja torto”. Gostei.

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