Cultura Organizacional: A Complexidade das Histórias e o Caminho para Melhores Decisões

by Augusto Cuginotti

Quando estamos de frente a um coletivo, com suas histórias e suas formas de tomada de decisão, como entendemos os nosso resultados e como direcionamos para resultados diferentes?

Uma das questões complexas em grupos de pessoas está relacionado com a cultura que é criada e sustentada nas relações. Como entender e nos conscientizarmos desta cultura? Como identificar as decisões que nos levam para direções que não queremos? E como decidir diferente?

Muitas das questões culturais são trabalhadas de forma analítica, buscando boas práticas do passado e deixando o presente e a realidade de lado. Para trabalhar estas questões empregamos algumas estratégias distintas que incluem abordar este tema em três lentes:

  1. Conteúdo Contextualizado
  2. Desintermediação
  3. Julgamento Coletivo

A premissa desta abordagem é conhecer como temos tomado as decisões que temos tomado no momento em que a decisão é tomada. Isso não joga fora a análise e a hipótese, pois também refletimos com base em quê e para conservar exatamente o quê a decisão aconteceu. A partir daí podemos escolher e agir com sabedoria.

Para conhecer o hoje usamos as histórias presentes na organização como nossos indicadores das escolhas atuais. Coletadas as histórias, as trabalhamos com estas três lentes.

Conteúdo Contextualizado

Aquela história que fez todo sentido durante a festa não tem o mesmo efeito durante a reunião de trabalho? A piada não tem graça deste lado do Atlântico?

Todo texto tem o seu invólucro, seu contexto e as histórias não são diferentes. Coleta-las e fazer um registro fora de contexto faz com que elas se percam ou sejam transformadas em algo totalmente diferente por aquele que lê e em si carrega um contexto distinto.

Uma das estratégias para separar texto de contexto é gerar conceito, abstração. Quem já ouviu falar de Ubuntu ou Ikigai, por exemplo?

Quantas organizações carregam o mesmo conceito apenas descrito de forma diferente? O que ele realmente significa?

Isso também acontece quando transformamos as experiências do dia a dia em uma representação abstrata como o uso de valores, necessidades básicas ou arquétipos.

A abstração pode ser válida e representativa, mas se feita por um e interpretada por outros que não carregam o seu contexto, as narrativas tendem a ser normalizadas e se perde o efeito de encontrar tanto a originalidade da narrativa quanto os sinais fracos que em geral se perdem na avalanche de informações.

Desintermediação

Como já diz o ditado popular: “Quem conta um conto aumenta um ponto”. Quem nunca jogou telefone sem fio? A mensagem que passa pelo filtro interpretativo de muitos, chega do outro lado muito diferente.

Desintermediação é trabalharmos para que os dados das narrativas, para que o conteúdo interpretativo das histórias, passe direto daquele que conta para os que são parte da tomada de decisão na qual a história tem relevância.

Para tirarmos o intermediário, deixamos de fazer interpretações das narrativas e seus padrões e convidamos os próprios contadores das histórias a intepretá-las publicamente.

Com isso retiramos os filtros de quem não viveu a narrativa e preservamos a história para que se julgue direto da fonte.

Uma das formas mais comuns de intermediação é a abstração, como indicamos acima. A outra é a hierarquia, onde se mastiga a informação para o nível superior tomar as decisões. Neste formato também perdemos o fio da meada e o gestor decide longe da fonte, gerando o costumeiro: “ele não sabe como as coisas realmente funcionam”.

Julgamento Coletivo

Além de retirarmos o middle man, ainda temos que olhar com calma para o inside man. Esse somos nós mesmos, nossas próprias lentes interpretativas que nos desafiam. Como podemos nos proteger da prática comum de julgarmos como sempre julgamos?

A forma de trabalharmos isso em um coletivo é justamente abrirmos espaço para julgarmos coletivamente.

Nosso objetivo aqui, frente às histórias que coletamos das organizações e comunidades, é julgar mais e não julgar menos. Não se trata de suspender julgamentos, mas de entrelaça-los de forma abrangente.

Os julgamentos ficam mais ricos quando entrelaçados pelas pessoas que carregam os contextos relevantes à tomada de decisão e aos direcionamentos que podem emergir das histórias do coletivo.

Decisões Melhores

As decisões complexas informadas por um coletivo, como por exemplo o entendimento de cultura organizacional, pede projetos interpretativos que trazem conteúdo contextualizado (histórias e não abstrações), interpretado por quem carrega o contexto e não por terceiros (desintermediação) e trabalhado pelos tomadores de decisão com uma gama de interpretações entrelaçadas (julgamento coletivo e não individual).

Esta abordagem conversacional talvez não fosse prática no passado pois não se trabalhava bem espaços e tecnologias de conversa coletiva e a única saída era dividir para conquistar. Hoje estamos em outro lugar: um processo conversacional nos dá acesso a julgar de forma mais completa a organização e tomar decisões mais bem informadas e contextualizadas.