Nós Podemos Sem um Maestro – Por Que a Sociedade Precisa de Menos Liderança e Mais Resiliência Social

by Eustaquio Santimano

Há alguns anos fui assistir a “Tragic”, uma sinfonia de Schubert em um festival de música local na Inglaterra. Antes do começo da apresentação, um dos violinistas, Timoti, veio nos dizer que ninguém estaria de pé em frente à sala – eles tocam sem um maestro.

Coesão – Hierarquia – Democracia

Mesmo eu não sendo nada expert em música, era claro que existia um nível de comunicação intenso entre os músicos durante a apresentação, um lindo movimento de corpos, olhos e vibrações. Por vezes me parecia que o primeiro violino era a referência de manter o tempo, mas os olhares e as conexões pareciam permear em meio a todos.

Os músicos ficaram depois da apresentação para falar com o público e responder a algumas perguntas. Quando alguém perguntou como as decisões são tomadas em uma orquestra sem um maestro, a resposta foi: democraticamente. Mas democraticamente baseado em boas ideias que fluiam, ideias que eram compartilhadas com todos e que nasciam com referência ao próprio texto musical.

Também foi interessante ouvir que igualdade não significa que não existe hierarquia de instrumentos como em qualquer orquestra, mas que neste caso hierarquia era um instrumento de coesão coletiva no lugar de um demonstrativo de diferença de valor.

A orquestra trabalha duro em sua preparação e apenas apresenta uma peça musical por concerto. Eu imagino que tocar sem um maestro deva ser mais difícil e, se muitas partituras irão ser tocadas e o tempo de preparação não é suficiente, um maestro poderia gerar coesão e evitar um patchwork de instrumentos.

Por outro lado, por optar trabalhar apenas uma música e interpretá-la como grupo, a diversidade de mundos musicais geram uma identidade coletiva que seria impossível de se atingir por um único indivíduo.

Além disso, um grupo com múltiplos centros e mundos é mais resiliente que um centralizado, é um mundo que pode ver e sentir mais da música do que uma única pessoa.

A orquestra também faz um convite ativo para que a audiência seja parte desta diversidade – a última surpresa do concerto foi ver a orquestra inteira descendo do palco e tocando a nossa volta – pude ouvir o violoncelo bem à minha frente com os demais instrumentos que me circundavam. Ouvi como se estivesse tocando com eles e, de certa forma, realmente estava.

Gostei muito do grupo pela sua coragem de experimentar e sua paixão pela música ao vivo. Você pode conhecer o trabalho deles (e quem sabe um dia ouvi-los) visitando Spira Mirabilis.

Nós Podemos Sem um Maestro

Eu aprecio maestros e condutores de orquestra e acredito que um bom maestro é aquele que se vê como um dos elementos do grupo mais do que somente aquele que conduz. Tive a oportunidade de ver maestros excelentes em ação – na música e em outras artes – e gostaria de ver outros mais.

O que eu vi nesta experiência foi um grupo que me parecia mais resiliente e vivo que uma orquestra tradicional. Tinha algo de livre e relacional, mas ao mesmo tempo comprometido com o que é música clássica de classe mundial.

Acredito que nossa sociedade pode sem um maestro. É mais lento, requer paciência e mais trabalho coletivo, mas resiliência em comunidade é o que fica quando maestros e líderes se vão.

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