from ashtarcommandcrew.net

Encontros Participativos com Clareza de Propósito

Tenho minhas inquietações, coisas que formigam o corpo para acontecerem. As maiores são prenúncio de alguma mudança que pode causar ansiedade, muitas vezes uma infundada fantasia de que o que está para mudar não vai caminhar para boa direção. Fantástico mesmo é que normalmente eu não tenho claro o que é “boa direção”. Fantasia completa.

Vejo a mesma fantasia trabalhando com os outros para criar e planejar espaços de encontro. Quem chama por vezes tem uma quantidade imensa de inquietações e pouca clareza de propósito e/ou quer saciar muitas vontades em um só espaço.

Gerenciar ansiedades é grande parte do trabalho. Fico imaginando casamentos – quem ajuda os noivos a organizá-los deve usar a energia assim:

energia_casamento

De Inquietações ao Propósito

A primeira parte do trabalho é sempre mais cuidadosa, e as vezes mais longa, do que as demais. Clarificar o propósito para nós mesmos e para a pessoa com quem estamos trabalhando é fundamental porque gera as condições de contorno da jornada que em seguida vamos criar.

Muitas vezes recebemos o chamado para ajudar a criar algo em que, na conversa, o propósito não está claro, é ambíguo ou, pior, são vários. A ansiedade aumenta também quando apontamos essa realidade – a sensação parece ser de que voltamos à estaca zero ao redefinir o porquê de tudo aquilo.

Ceder a essa ansiedade e assumir que está tudo ok é uma armadilha que eu me lembro já ter caído diversas vezes. Seja no começo da conversa ou no meio, agarrar no tronco de um bom propósito é fundamental.

Condições para Criação Coletiva

Para darmos espaço para que se criem caminhos coletivamente, é essencial darmos as condições de que direção estamos falando. A definição e clareza de propósito nos permite desviar a rota de acordo com os acontecimentos e ainda assim caminhar na direção que queremos.

A clareza inicial previne ter que dar direção durante, ação que é resultado de propósito mal formulado e gera frustração geral: “como assim? convidaram para participar, mas por esse caminho não pode?”

Deixar explícito a direção gera as condições para que os próprios participantes definam os caminhos que fazem ou não sentido.

Uma das riquezas de encontros abertos é justamente essa capacidade de adaptar ao que vai sendo criado, trilhando caminhos que ainda não foram mapeados. O papel do anfitrião é dançar com as mudanças de caminho e trazer consciência de mudanças que afetam a direção que se imaginou no começo de tudo.

Propósito na Voz do Participante

Depois de criada a clareza entre quem anfitria é chegada a hora de receber os participantes da jornada. Aqui também é essencial que se revisite o entendimento de propósito.

Em situações complexas em que múltiplos atores estão envolvidos e carregando suas inquietações particulares, é natural que, por mais que se clarifique o propósito no ato de convidar, ainda assim cada um fantasie o seu próprio.

Explicar o porquê de estarmos juntos logo no começo da jornada ajuda, mas o melhor mesmo é abrir um espaço inicial para que os próprios participantes possam explorar consigo mesmos o porquê de estar lá. Ao articular o propósito na voz do coletivo, permite-se um alinhamento e uma checagem de destino antes da partida.

Checklist Clareza de Propósito

  • Transforme inquietações em um propósito claro e único.
  • Cuide para que exista tempo suficiente para atender ao propósito definido.
  • Na hora, preste atenção.
by Alejandra Mavroski

Quem somos quando nos observamos?

Olhar para si mesmo é olhar para as reações que temos quando percebemos acontecimentos ao nosso redor. Essas reações são aqueles pensamentos, julgamentos, sensações e emoções que aparecem de surpresa e que vamos re-conhecendo aos poucos.

Quem somos quando nos observamos? Somos essas reações, com toda maquiagem que produzimos sobre elas, somado a uma caixa preta de declarações recursivas que gostamos de exercitar para poder, inclusive, aplicar boas maquiagens nas reações que somos.

De forma mais direta fica assim: eu sou quando sou de surpresa. O resto é minha imagem de mim, maquiada para satisfazer meu desejo oculto de não ser eu mesmo. Sim, mais ou menos como no Facebook de quase todo mundo.

Muito se fala em olhar as coisas, pessoas e situações de formas diferentes, de inclusive nos olharmos de formas diferentes. O olhar do indivíduo não nos permite novas diferenciações. Simplesmente porque não estamos sendo de surpresa, olhar assim só serve de material para maquiagem do ser.

Só podemos ser de surpresa em relação. No relacionar com o outro temos a oportunidade de refinar nosso olhar para nós mesmos.

Assim, uma mudança minha e do meu mundo vem de prestar atenção no que sou no momento da relação com o outro. A mudança vem de algo que me descortina, mesmo que só eu mesmo possa ver a diferença. É algo que perturba o que tenho sido até então.

Em lugar de expandir o nosso olhar, melhor é aprender a prestar atenção no momento em que somos descortinados. Neste momento aprendemos sobre nós e refazemos o nosso mundo.

Luiza Padoa and Juliherme Piffer

Manifestando uma Revolução de Segunda Ordem

O protesto por si só não pode garantir uma visão de longo prazo para um país, de modo que o caminhar em linha reta das manifestações tem que ser re-configuradas em círculos de diálogo e novos padrões de democracia participativa. Isto é o que está acontecendo no Brasil.

Este texto foi produzido originalmente em inglês para OpenDemocracy – Transformation e sua versão original se encontra neste link. Obrigado Darlene Coelho pela tradução. Arte acima por Luiza Padoa e Juliherme Piffer


 

Como a energia de manifestações de rua pode ser utilizada para a transformação de longo prazo da sociedade? Como uma revolução pode gerar propostas concretas de mudança sem se reduzir a um discurso político?

Estas são questões que emergem de cada protesto, assim que os cartazes e cacetetes são baixados.. Respondê-las requer o que eu chamo de uma “revolução de segunda ordem.”

A partir de junho de 2013, muitas cidades brasileiras explodiram em uma onda de protestos de rua. Eles iniciaram por um aumento de sete por cento nas tarifas de ônibus, mas se transformaram em uma declaração mais geral de insatisfação pública com a situação do país: “Basta! “, o público parecia estar dizendo.

Os políticos se esforçaram para compreender e chegar a definições sobre o que estava acontecendo, e tentaram em vão identificar representantes dos manifestantes com quem pudessem falar. Após de milhões de pessoas permanecerem nas ruas por semanas, o aumento da tarifa de ônibus foi revogado, mas muitos brasileiros continuaram suas ações à medida que outros temas eram desdobrados e mais exigências eram feitas.

Muitos comentaristas e ativistas escreveram sobre estas experiências como um ponto de inflexão em potencial no Brasil, e tentaram explicá-las em termos do contexto econômico do país, dos gastos extravagantes para a próxima Copa do Mundo, e do poder das redes sociais para mobilizar manifestações de grandes dimensões.

As fotos dos protestos mostram milhões de pessoas nas ruas, demarcando um momento potencialmente histórico para o país. O que é interessante, para mim, é que estas imagens mostram um padrão comum de protestos de rua no qual a maioria das pessoas está olhando na mesma direção – marchando em linha reta, quase como uma divisão militar em ação. Mas as sociedades como um todo não funcionam dessa maneira (principalmente as democráticas), porque as pessoas não concordam com os detalhes de como a ordem estabelecida deve mudar após os protestos.

O protesto por si só não pode garantir uma visão de longo prazo para um país, de modo que o caminhar em linha reta das manifestações tem que ser re-configuradas em círculos de diálogo e novos padrões de democracia participativa. Isto é o que está acontecendo no Brasil.

Os brasileiros vão continuar a mostrar o seu descontentamento sobre um país que é conhecido por sua corrupção, e pelas enormes lacunas que existem entre ricos e pobres. Mas ao lado dos protestos públicos visíveis algo mais sutil está acontecendo: conversas em espaços públicos sobre a futura direção da sociedade.

Tais conversas representam uma revolução de segunda ordem. Elas têm o potencial para transformar o modo pelo qual a mudança social é construída, permitindo que novas histórias emerjam. E elas convidam os cidadãos a se apropriarem dos espaços públicos, a fim de explorar versões divergentes sobre a trajetória de seu país e formar novas compreensões coletivas.

By @David_EHG

Evento 1000 mesas em Israel

“Círculos de diálogo” como estes têm ocorrido em muitos outros lugares. Em Israel, por exemplo, mais de trinta cidades se reuniram ao redor de 1.000 mesas em 2011 para explorar as questões políticas e sociais que eles enfrentam. O principal espaço de diálogo (uma praça em Tel Aviv) foi transformado em um enorme salão com espaço para 5.000 pessoas. Da mesma forma, durante o tumulto na Grécia, que teve lugar entre 2010 e 2012, o público ocupou a Praça Syntagma, no centro de Atenas. Embora a ocupação não tenha produzido muito diretamente pelo caminho do diálogo, ela abriu caminho para surgirem outros espaços e conversas.

No caso do Brasil, conversas públicas deste tipo foram organizados em quatro grandes cidades, assim como em muitas localidades menores em todo o país. Em Brasília – uma dos primeiras a acolher esses diálogos – a iniciativa surgiu a partir de um grupo de pessoas que queriam explorar o que seria necessário para criar uma ponte entre a situação atual e o futuro que desejavam.

Percebi que seria uma conversa superficial se não tecessemos nossas idéias juntos, disse Sérgio

Em uma recente entrevista comigo, Sérgio Monforte, que estava envolvido em um desses círculos, explicou como o processo começou: “Nós estávamos sentados em plenário em um espaço público próximo ao Congresso Nacional”, disse ele, “e percebi que seria uma conversa superficial se não tecessemos nossas idéias juntos. “Monforte e outros propuseram a criação de pequenos grupos para explorar questões sem temas pré-definidos, e para suscitar idéias de ação. “Nem todos concordaram”, continuou ele, “por isso no início fizemos um grupo paralelo com o plenário.” As idéias foram colhidas para descrever a transição entre “o Brasil de hoje e o Brasil que queremos no futuro”, incluindo “a morte de petróleo “e construção de “redes de comunidades sustentáveis”.

Essas discussões iniciais também produziram uma série de pequenas ações conjuntas, como um vídeo para explicar como as leis são criadas e alteradas no Brasil; um exercício para ajudar as pessoas a conversarem entendendo os pontos de vista de cada um, e propostas sobre como outros grupos poderiam ser apoiados para sediar conversas semelhantes. Como resultado destas propostas, foi criado um guia de metodologia com base na experiência de Tel Aviv. Ele descreve o processo de conversa em grupo chamado World Café, uma tecnologia social que permite conversas acontecerem em uma grande escala, sem suprimir a diversidade de vozes presentes. No final do processo, os resultados da conversa foram apresentados de forma visual.

Por definição, [espaços públicos] é onde um legislador deveria estar – disse Ricardo Young

Em São Paulo, os diálogos ocorreram ao longo da Avenida Paulista, o centro financeiro do país, mas também em um espaço público que há muito havia sido esquecido – dentro assembléia legislativa da cidade. Ricardo Young, vereador da cidade de São Paulo, participou dessa conversa e seus resultados auxiliaram seu trabalho: “diálogos públicos são um instrumento essencial em que o legislador pode expressar suas opiniões e ouvir diferentes pontos de vista sobre a realidade,” ele me disse , “por definição, este é o espaço onde um legislador deveria estar.”

Será que esse processo realmente afetará o futuro do Brasil, uma vez que continue a evoluir? Essa é a pergunta óbvia, e não é possível responder a ela agora. Mas sem algum tipo de discussão pública em larga escala, ela não será respondida de forma democrática.

Václav Havel, escritor, ativista e ex-presidente da República Checa, uma vez observou que “eu realmente vivo em um sistema em que as palavras são capazes de abalar toda a estrutura do governo, onde as palavras podem ser mais poderosas do que dez divisões militares.”

Sem sinais de colapso do regime comunista e pouca esperança no horizonte, Havel e seus amigos se encontravam secretamente para sediar conversas e gerar novas histórias sobre o futuro. Eles se encontravam em cafés subterrâneos e publicavam jornais alternativos . Eles convidavam para o debate e criavam novas idéias e interpretações sobre a política e a economia . Até mesmo os membros do regime comunista achavam uma forma de se juntar a essas conversas . Essas pequenas ações não abalaram o sistema maior diretamente, mas ao longo do tempo uma compreensão coletiva diferente sobre a sociedade checa começou a surgir.

O Brasil de hoje é muito diferente da Tchecoslováquia de Václav Havel sob o regime comunista, mas isso não dilui a importância dos tipos de conversas a que ele estava se referindo. Muito pelo contrário, já que essas conversas deveriam ser muito mais poderosas nos espaços públicos de um Estado democrático. Com o tempo, elas podem até abrir uma oportunidade para transformar a própria democracia, desde as eleições representativas a cada quatro anos até um processo contínuo de diálogo público participativo.

Os protestos de rua não vão e nem devem desaparecer, mas talvez as manifestações do futuro incluam a caminhada de milhões, seguida por milhares de círculos de diálogos. Talvez a definição de novas leis seja precedida de conversas abertas que ocorram em um parque público perto de você, e anfitriadas por quem esteja interessado. Imagine o que poderia acontecer se os representantes políticos fossem se juntar a essas conversas para se encontrarem com seus eleitores face a face. A responsabilidade política não mais seria delegada a poucos. Em vez disso, o público poderia estar mais próximo e se apropriar do processo político.

Sociedades complexas exigem altos níveis de participação pública, e não apenas nas ruas, mas nos espaços onde as idéias e opiniões nascem e são moldadas. Estes espaços poderiam tornar-se laboratórios de engajamento público em um nível totalmente novo, abrindo as portas para uma revolução na democracia.

from lesliewong.us

Arquitetos do Encontro

Este texto foi publicado originalmente no blog do Hub Escola.


Que boa surpresa poder ver na última edição do Hub Escola a quantidade de oficinas e conversas sobre conversar: diálogos, conversas que importam, essência da facilitação, comunicação autêntica.

A importância de conversar como forma de agir no mundo ganha o espaço que merece – conversar é a ação que nos permite coordenar nossas ações conjuntas e são as conversas sobre o que importa hoje que fundamentam o mundo que queremos. Conversar é construir mundos em conjunto e, além de tudo, é conversando que a gente se aprende.

Conversar é uma arte que se desenvolve participando integralmente do encontro com o outro. É uma arte que demanda atenção e dedicação para que possamos nos enxergar como agentes dessas conversas. Mesmo em momentos em que estejamos aparentemente não agindo, ainda assim precisamos de atenção para escutar ativamente o outro. Uma boa conversa é um bom investimento da nossa energia e um desafio para nossa habilidade de estar presente.

De mãos dadas com a arte de participar integralmente caminha a arte de criar espaços e condições para que aconteçam as conversas que são chave para o nosso momento, seja ele pessoal ou de um coletivo. É importante que tenhamos espaços para que a comunicação sobre o que importa para nós neste momento possa acontecer.

Estive recentemente no Vale do Anhangabaú e, olhando para o espaço vazio com pouca gente espalhada lendo jornal, pensei no artigo enviado por uma amiga em que um arquiteto famoso por reurbanizar cidades européias afirma: “São Paulo precisa de espaços de encontro”. Além da arquitetura física, a cidade e qualquer outro espaço precisa de arquitetos do encontro – gente que escuta qual a conversa que deve acontecer e cria as condições para que ela se torne realidade.

Já existem vários espaços interessantes de encontro na cidade, o Hub Escola é um exemplo deles, as Manifestações Diálogo, outro. São estes encontros, em espaços públicos ou privados, que são convite à comunicação e ao diálogo. São convites para nos desenvolvermos como seres que melhor nos relacionamos e também para desenvolvermos as inquietações que nos movem neste momento.

Arquitetos ou artistas do encontro são as pessoas que ouvem suas inquietações individuais e as coletivas e criam os espaços necessários para que conversas significativas possam acontecer.

Se você já se aventura ou quer se aventurar em explorar a arte do encontro, uma oportunidade este ano é estar com outros artistas na Vila de Aprendizagem, compartilhando e ouvindo as práticas de quem convida pessoas para aprender junto. Informações sobre a Vila em: http://viladeaprendizagem.com.br

by Rainbirder

Quem Manda Nessa Conversa, Afinal?

Participei na semana passada da conferência internacional em educação democrática. Pela primeira vez em 20 anos os organizadores resolveram arriscar uma conferência sem painéis e palestrantes e gerar espaço para oficinas paralelas como em um Open Space.

A transição de um formato tradicional para este mais diferente foi controversa. Muita gente compartilhou sentir falta de painéis em que alguém tomava a frente para compartilhar experiências de sucesso ou insucesso, ou para apresentar uma ideia nova e estimulante. Outros olhavam para o programa atônitos – uma quantidade grande de opções os deixava ansiosos.

Quando perguntado do que achava da conferência, disse que este sistema de escolha e espaços abertos era o único tipo de conferência para a qual sentia que valia a pena ir, mas que entendia as frustrações atreladas ao modelo.

A ansiedade frente às opções é mesmo questão de ter estado e acostumar-se a espaços assim. Vale lembrar que estar em uma conferência, em um lugar específico, implica abrir mão de vários outros espaços acontecendo em outros lugares. Sempre vamos fazer escolhas.

Ter experimentado encontros assim no passado, como eram os Fóruns Sociais Mundiais que se espalhavam por toda Porto Alegre, nos faz ficar em paz com onde estamos e aproveitar um fluxo de aprendizado mais tranquilo e profundo.


Já a falta de gente tomando a frente das oficinas foi uma falha. Uma ideia bem intencionada dos organizadores, é verdade, mas uma falha. Em vez de se comprometerem por inteiro com um formato de Open Space, resolveram levantar de antemão, em um fórum online, quais eram os assuntos sobre os quais as pessoas gostariam de conversar e montaram uma grade de oficina com eles, cada uma com um facilitador aleatoriamente apontado.

Uma falha porque não havia nas oficinas ninguém que era realmente o anfitrião da conversa. O tópico, pré-pronto, não tinha uma pessoa por trás que trazia a clareza e curiosidade em uma pergunta, uma experiência, uma ideia.

A falta de uma pessoa comprometida com explorar o conteúdo presente transformou a conversa em um jogo de definições: o que será que realmente quiseram dizer os que pré-escolheram esse tema? Por que mesmo estamos aqui? Com o tempo passado para se definir com clareza do que se tratava o espaço, acabava-se a oficina e a sensação de superficialidade pairava no ar.

Escrevi em outro momento sobre o desconstruir do nosso impulso de ficar sentado em uma sala na qual não estamos tirando proveito da conversa. Isso gerou um convite que em Open Space é representado pela lei dos 2 pés.

Também comentei a importância de se ter um responsável pelo convite e pelo espaço – algo que não aconteceu nesta conferência.

Essa falha talvez seja um reflexo do confundir democracia com responsabilidade diluída, democracia com ser representado. O pré-forum teve seu conteúdo democraticamente escolhido e representado na conferência – não colou.

Faz todo sentido a pessoa poder escolher em que espaço quer estar, ter a oportunidade de ter a conversa que quer ter com um grupo menor e engajado no mesmo micro-tema que ela.

O Anfitrião é aquele que cria as condições que dão vida a um convite.

O que deixa de fazer sentido é não ter o indivíduo ou grupo de pessoas que se responsabiliza pelo convite e cria as condições que dão vida a ele: estou convidando para conversarmos sobre essa pergunta, para debatermos essa experiência ou, simplesmente, estou convidando para que assistam a uma palestra minha.

Não ter um responsável por cuidar do espaço e do convite descaracteriza um espaço intencional de aprendizado. Não é dizer que não se possa aprender em situações não intencionais, muito pelo contrário: talvez tenhamos algumas de nossas experiências mais profundas em espaços e momentos em que menos esperamos. Porém uma conferência é, afinal, um espaço intencional que já convida para uma conversa específica, temática.

Não restrito a espaços intencionais, mas parte dele, mora a importância de nos co-responsabilizarmos pelo aprendizado próprio e tornar-nos responsáveis nos diversos papéis que escolhemos estar, talvez como anfitrião ou como anfitriado, talvez como um dos que convida ou como um dos convidados.

Aprender não admite representatividade – só você pode representar seu caminho de aprendizado e este caminho está intimamente ligado por tornar-se responsável por ele, independente do papel que esteja.

Convidar também requer ser responsável. Só convida quem está imbuído do espírito do tal convite, alguém que, mesmo que convite por um coletivo, não o representa, apenas carrega uma parte fundamental dele.

O conteúdo da conversa está intimamente ligado à capacidade de quem anfitria em trazer o espírito do que se quer conversar. De aí em diante muito do que acontece é belíssimamente incontrolável.

by vgm8383

A Arte do Convite

Existe uma aura em volta de um convite bem feito. Imagine um convite, escrito ou falado, com uma mensagem que te chama a atenção, algo que de alguma forma diz que ele foi feito para você e chegou no momento certo.

Um convite tem um aspecto mágico, ele coloca uma nova possibilidade na mão daquele que o recebe. Existe algo novo, que faz sentido para mim, e existirá uma oportunidade futura de que eu faça parte.

Quando aceitamos ou não um convite, abrimos e fechamos algumas possibilidades, tomamos uma decisão em uma ou outra direção. Um convite é como aquelas placas na encruzilhada das estradas, indicam possíveis direções na nossa jornada.


A beleza do convite está relacionada com a liberdade que ele gera. Um convite não é um comando, um direcionamento forçado. Aquele que convida genuinamente está pronto a receber aceites e recusas.

Se um convite não obriga a ação de aceitá-lo, certamente obriga o convidado a tomar uma posição. Convidar não é uma ação inocente, é um ato direcionador e modificador de mundo.

Quem convida abre um espaço para possibilidades, mas também direciona de duas maneiras:

    1. Quem convida delimita o que quer coordenar com os outros: qual o evento, com qual propósito, em qual lugar e em que momento, etc. Aceitar o convite normalmente implica aceitar as delimitações.
    2. Quem convida obriga o convidado a decidir-se. Um convite não é inocente – pede uma ação do convidado, mesmo que esta ação seja uma recusa por falta de resposta.

A arte de convidar é a arte de aprender a abrir elegantes possibilidades. Convidar é a primeira materialização do fazer bem para aquele que recebe bem. A Arte está relacionada com encontrar o ponto ótimo entre a possibilidade direcionada e a liberdade de escolha.

Como mandam as artes, a arte de convidar se aprende convidando. Estou procurando por convites bem feitos – escritos, vídeos, poemas, etc – para conhecer mais sobre a materialização desta arte. Tem algum que vem à mente e que você pode compartilhar comigo?

from wikipedia

Carregadores de Mundos

Estava recentemente lendo uma exploração sobre o re-aprender a importância de como nos encontramos (em inglês).

Esse sentimento de re-aprender como nos encontramos volta e meia bate a minha porta. Sinto como se fosse um toque de lembrança sobre minha própria jornada e como ela vai mudando e evoluindo.

Traduzimos a forma como nos encontramos em muitas coisas: como preparamos o espaço, como convidamos e como usamos e transformamos a linguagem – mas no fim tudo faz parte do natural encontrar-nos em diálogo, a mágica de múltiplos mundos investigando uns aos outros com curiosidade. E a minha curiosidade se renova, curiosidade pela arte do encontro e como podemos auxiliar para que estes espaços aconteçam.

Nas minhas explorações sobre sistemas sociais, coisas que tenho escrito em inglês, a forma como nos encontramos talvez seja a única na qual as atividades humanas possam imaginar influenciar mudança social. A mudança-chave é a conversa, mas não aquelas que temos todos os dias nem as que podemos planejar para influenciar outros e seus mundos.

A conversa para mudança social é aquela em que mundos se encontram e se re-descobrem. Para estas, nós não ensinamos porque as pessoas já sabem, não institucionalizamos porque são as pessoas as carregadoras de mundos, não as organizações. Nós convidamos para o que temos escutado e colhemos o que ouvimos.

from monpetitresor.blogspot

Mais um ano em Summerhill

Mosaico Summerhill

Mosaico na entrada de Summerhill

Acaba de começar o trimestre de verão em Summerhill, já é o terceiro desde que Andresa, Catarina e eu saímos de lá. Estivemos essa semana visitando a todos e foi muito legal poder ver de fora as coisas caminhando, mas sabendo um pouco de como elas funcionam tendo estado dentro.

Com a primavera inglesa despontando e tendo sido dois dias de sol, deu um pouco de saudade do verde e dos passarinhos da região. Isso junto com o sentimento de visitar gente com quem vivemos dois anos de nossa vida e que são de certa forma como uma família estendida.

Sei que ainda vou contar muitas histórias de lá e que muito vão perguntar se esse tipo de educação funciona. Com estas eu outras perguntas com certeza vou visitar na memória a escola muitas vezes e quem sabe também vez por outra poder ir rever a família ao vivo.


Agora já mais assentada a minha partida da escola e somando essa visita que fizemos sinto que chegou a hora de fechar essa seção de escritos sobre Summerhill.

Visitando tudo o que escrevi vi que nem foi muito, talvez porque não tenha sabido contar as riquezas e dificuldades de lá como gostaria, talvez porque realmente não tenha nada de tão especial para contar — é só o diferente que é. Talvez ainda tudo isso precise conhecer a linguagem de fora para que mais coisa possa aparecer no futuro.

Continuarei convidando para conversas sobre multiplicidades no aprender e na educação. Summerhill é certamente um ícone das possibilidades que existem além do que se apresenta como default.

by ABELOroz

4 Práticas para Anfitriar Aprendizagem

Nunca ninguém se perdeu
Tudo é verdade e caminho.
Fernando Pessoa

Quatro Práticas

1. Acredite nas pessoas — Quem convida para aprender como anfitrião não precisa ensinar nada, simplesmente confia no convite e nas pessoas. Pode ser difícil de acreditar, mas por mais que as vezes nem elas mesmas tenham consciência, elas podem. E só elas podem. Se elas não podem é porque não está na hora e não tem nada a ver com você.

2. Esteja Disponível — Desocupe-se. Todas as contingências do mundo não são sua responsabilidade e o que precisa estar preparado já está. Preparou mal? Entregue-se, mas não arrume. Confesse o erro mas não explique a piada. Continue disponível porque este é o seu papel – a responsabilidade do que acontece no presente é sempre compartilhada com todos os presentes.

3. Seja Invisível — Gabe-se de nem aparecer no trabalho. Um bom anfitrião fez a maioria do trabalho antes de tudo começar. Ele pode dar as boas-vindas, mas não é mestre de cerimônias e nem conferencista. Ele fica invisível a quem participa o máximo que pode e é fundamental como são as coisas que não se nota.

4. Preste Atenção — Não analise o que acontece, não leia ninguém nem nada. O único trabalho é prestar atenção. Em alguns casos, por prestar bem atenção, alguns padrões ou hipóteses podem aparecer – pergunte-se: é imperativo que eu a aponte para o rei nu? Se não for, cale-se. Se for, limite-se a uma pergunta bem formulada.


Algumas Dicas para o Caminho

Dicas que está no caminho certo:

  • Sua autoridade é marginal, as pessoas tomam liberdades sem nem olhar para a sua cara.
  • Nem lembram que você existe no final do dia.
  • Em algum momento pensaram em te mandar para casa.
  • Reclamam que você faz muita pergunta.

Dicas que que está no caminho errado:

  • Está muito cansado ou sem voz no final do dia.
  • Sabe quem é o porta-voz e o bode expiatório.
  • Você justifica ou lamenta acontecimentos do coletivo.
  • Recebe elogios por colocar ordem na bagunça.

O que ajuda:

  • Ficar quieto – contar ovelhas quando der vontade de falar.
  • Respirar fundo – sempre uma vez além do que você acha necessário.
from amsterdamadblog

Esperanças Tecnológicas: Contribuições e Cuidados em Aprendizagem

nowifi_getdrunk

A emoção generalizada por plataformas online de acesso à informação é compreensível. Quem poderia imaginar há algumas décadas que o acesso ao conhecimento científico pudesse estar disponível em diversos pontos de acesso espalhados pelo mundo todo?

Nossa presidenta recebeu o ícone de tais plataformas, o fundador do Khan Academy. Entre ele e outros, além das iniciativas nacionais de tradução de conteúdos para o nosso português, qualquer pessoa com acesso à rede e com interesse por um tema pode iniciar seu aprendizado no momento em que quiser e na velocidade que achar conveniente.

Tem gente que suspira de emoção e outros que arregalam os olhos com ceticismo. Essa realidade tem contribuições e também merece cuidados.

Nova Ferramenta, Novo Messias

Os cuidados são os de sempre quando o tema é aprendizagem: achar que ferramentas são o que realmente falta para a criação de espaços do aprender. O computador mesmo já foi o messias: as escolas públicas ganharam santuários com máquinas que por vezes ficavam trancadas atrás de grades.

Também assim foi a Internet em geral e hoje os vídeos no Youtube em particular. Amanhã certamente haverá algo mais, sempre uma esperança de que ao nos fazermos mais tecnologicamente avançados, aprenderemos e ensinaremos melhor.

Por outro lado, como já é sabido, tudo isso tem contribuições. Não falo da contribuição de acesso à informação e ao conhecimento, nem falo da oportunidade das pessoas serem autodidatas e poderem estudar no seu próprio tempo, já que considero que são contribuições marginais.

Espaço Aberto para o que Importa

A contribuição maior é na possibilidade de quem ensina, facilita ou cuida dos espaços de aprendizagem de terem mais tempo e energia para prestar atenção no que realmente importa.

Imagine que todo o conteúdo das nossas descobertas históricas estejam acessíveis e a base de conhecimento disponível dê conta de ensinar tão bem quanto um professor na sala de aula.

Agora imagine as pessoas se encontrando, crianças ou não, e interagindo com o que aprenderam umas com as outras. Em duas camadas, as possibilidades:

Camada Conteudista

Olhando para o entendimento de conteúdos, um professor ou facilitador pode prestar atenção no que realmente são peças-chave para a aplicação e compreensão de cada tema. Como alguém com mais experiência, pode dialogar seus conhecimentos com os outros.

A princípio os que propõe ensino por estas plataformas deixam claro que assim deve ser: usar a tecnologia para auxiliar o ‘professor’. Para isso o ensinar precisa migrar de se olhar para objetos de aprendizado específicos para prestar atenção na forma em que esses objetos se conectam entre eles, com cada um e com o mundo.

Ouvir o Khan pode ensiná-lo regra de três, mas não ensinará matemática e nem proverá o espaço de calcular quantos gramas de presunto eu consigo comprar com R$5.

Camada Relacional

Além dos conteúdos, as pessoas poderiam encontrar-se para viver em conjunto ao invés de estar entre quatro paredes ouvindo/fazendo atividades dirigidas. Viver em conjunto quer dizer tomar conta do próprio tempo, ficar entediado por não receber instruções e aprender a propor e criar brincadeiras, atividades, projetos… é ter tempo para se relacionar com o outro e com a comunidade e aprender dessa relação.

Um dos grandes convites tecnológicos é de termos mais treinamento, mais conteúdo, mais conceito e menos experiência, menos relação e menos eventos com o outro. O ampliar da tecnologia não vai automaticamente ampliar nossa consciência em relação a esta camada — as conversas são outras e precisam estar presentes.

Plataformas online de aprendizagem, enfim, são um tema que representa muitos outros, um tema que lembra da nossa esperança de resolver as questões por nossa sagacidade racional, nosso cientificismo.

Estas mudanças podem ser o que as tecnologias são para o homem moderno: uma forma de tornar-se mais ocupado e desconectado, ou uma forma de usar melhor o tempo offline para as coisas que realmente importam.