by One From RM

Intervenção a Serviço de Quê?

Acabei de voltar de duas semanas intensas estudando-me e estudando grupos na conferência Tavistock que acontece há 66 anos na Universidade de Leicester.

A conferência tem como uma das suas premissas básicas que grupos trabalham em uma tarefa consciente mas sempre tem um processo inconsciente que ocorre paralelamente. Acessar esse processo inconsciente pode estar a serviço de facilitar o desenvolvimento da tarefa ou do próprio desenvolvimento do grupo e de seus membros.

O papel do facilitador é de prestar atenção e criar hipóteses sobre a narrativa insconsciente do grupo quando ele/a julgar que isso é uma intervenção que serve o grupo em direção a seu objetivo.

Tivemos diversas sessões de trabalho e pude exercitar a formulação destas hipóteses e testá-las com os grupos com os quais trabalhei. Esse exercício pareceu ser uma mistura de atenção aos padrões de fala das pessoas juntamente com as formas de expressão, emoções e o não-verbal.

Foi interessante ver como a narrativa do grupo é influenciada quando alguns padrões são expostos como possibilidade.

Em uma das muitas conversas informais durante a hora do jantar, aprendi sobre as intervenções que não são adequadas.

O contexto era uma conversa sobre racismo onde uma carga de emoções (raivas, frustração, culpa, etc) foi bloqueada por um comentário que racionalmente fazia bastante sentido.

Lembrei dos momentos em que eu fiz o mesmo, expus um comportamento que fechou o espaço para que essas emoções pudessem ser expressadas. Me mostrei sagaz e atrapalhei o processo do grupo.

Ter espaço para expressar raiva pode ser fundamental para a saúde de um grupo. Aprendi que intervenção que racionaliza emoções que precisam ser expressadas, mesmo as verbalmente violentas, estão apenas empurrando as questões para debaixo do tapete.

A questão é: varrer para debaixo do tapete serve melhor o grupo naquele momento? Por vezes sim, mas algumas vezes apenas adia o confronto inevitável com assuntos que ficam vivos narrativa inconsciente.

Essa narrativa inconsciente parece ser a causa de grupos que parecem sempre em conflito sem motivo aparente ou simplesmente apáticos. Trata-se de uma história oculta que sequestra e paralisa o grupo.

Como saber se a intervenção faz sentido? Lembrei da sempre relevante pergunta: ela está a serviço de quê?

from annabrixthomsen.com

Expandir o Olhar Atrapalha. Preste Atenção.

Uns pensamentos em que tenho colocado atenção…

  • Importante mesmo é prestar atenção;
  • Nem tudo que merece nossa atenção pode ser medido;
  • Expandir o olhar mais atrapalha que ajuda.

No que é que Prestamos Atenção?

Todos os dias se passam milhões de acontecimentos e não nos damos conta da grande maioria. Sorte nossa.

Se já temos coisas demais processando todos os dias, imagine se tudo o que estivesse disponível à nossa mente e sensações fosse consciente. Ataque de estresse às 10 da manhã na certa.

Para mudar coisas novas, devemos prestar atenção em coisas novas.

Porém são somente nas coisas em que prestamos atenção que podemos ter influência consciente de mudança. Se queremos fazer as coisas diferente, devemos prestar atenção nelas. Para mudar coisas novas, devemos prestar atenção em coisas novas.

Medir e Analisar

Um dos jeitos interessantes de mudar é medir e analisar. Medir e analisar é um presente, mas nunca está no presente. São coisas para olhar para o passado e para planejar o futuro. Saber medir e planejar é coisa de gente grande, aprendizado para a vida.

Nem tudo que merece nossa atenção pode ser medido.

O cuidado é não deixar a análise ser monopólio da sua atenção. Se feito a todo momento, são práticas que nos tiram do presente. Meça e analise menos, preste mais atenção.

(Tentamos explicar isso para os inspetores da OFSTED na Inspeção à Summerhill).

Não Expanda sua Forma de Olhar

Mudar o alvo de nossa atenção é mudar o olhar. Expandir o olhar, no sentido de prestar atenção em mais coisa, é caminho ao desempoderamento do olhar.

Olhe para poucas coisas com grande atenção.

Por outro lado, mudar o olhar é fundamental. Não expandir um, mas trocar de olhar de tempos em tempos, expandindo a quantidade de olhares. É como saber contar várias versões da mesma história, um convite para olhar de novo.

A melhor forma de trocar de olhar é estar verdadeiramente com o outro. A troca de olhares nos faz olhar diferente. É no contato com outros mundos, resultado de estar com o outro, que olhamos com outros olhos e aprendemos novas histórias.

Atenção Requer Energia

Isso não quer dizer que as pessoas não possam ter atenção a mais de uma coisa ao mesmo tempo. Eu particularmente não posso, mas conheço gente que tem um processamento paralelo fantástico.

Mesmo a esses virtuosos multi-task, o caso é que nossa atenção requer energia e é limitada. Quem paralela demais deixa de prestar atenção.

Colocando Atenção na Atenção

  • Guarde energia para poder prestar atenção no que importa.
  • No mundo abunda informação, aprenda a ignorar as que te distraem.
  • De tempos em tempos preste atenção em como você presta atenção.
  • Preste atenção em poucas coisas por vez.
  • Nunca deixe de considerar mudar o alvo de sua atenção.

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from stoppingoffplace.blogspot

Características de Summerhill


A repercussão do que vem fazendo Summerhill há mais de 90 anos ainda causa impacto nos educadores brasileiros. Mesmo depois de teorias pedagógicas já terem nascido e morrido, mesmo depois de infinitos debates entre conservadores e progressistas, o que se faz por aqui ainda inspira as mais diversas emoções aos que pensam em educação.

Coletei as características mais comentadas pelos Brasileiros com quem conversei sobre a escola. Algumas são alvos de adoração por uns, algumas de forte crítica por outros mas, como dizem por aqui: “você pode adorar a idéia ou odiá-la, […] mas uma coisa é certa, você nunca verá educação e infância da mesma forma novamente¹”.

Educação Democrática

O fato de os alunos participarem ativamente da comunidade escolar e da tomada de decisões é uma das coisas mais lembradas da escola. Essa forma de participação, embora ainda diferente da maioria das escolas, já conquistou espaço em vários países e tem diversos representantes, inclusive no Brasil².

A democracia na escola é direta para a maioria dos assuntos e eventualmente representativa quando são necessários comitês de trabalho para alguma coisa específica. O processo de voto pela maioria se mostra, neste contexto, muito superior à busca de consenso. Como um tema, mesmo depois de decidido, pode ser levantado novamente em um assembleia 3 dias depois, o voto pela maioria simplifica, agiliza e não compromete questões importantes que são bastante discutidas antes de abertas ao voto.

Com um olhar histórico, o processo de decisão da assembleia é impressionante por si só. Trata-se da democracia de crianças mais antiga do mundo e mais antiga que muitos estados democráticos atuais. Junto com a assembleia, processos de participação incluem um grupo de alunos atuando como ombudsman e os diversos comitês.

Freedom, not License

Summerhill também é uma escola livre, um lugar onde as crianças são livres para escolher se vão nas aulas e têm o direito de, se quiserem, brincar o dia inteiro.

Ser livre não é poder fazer tudo o que se quer fazer. Esse entendimento faz de Summerhill uma escola que se auto-regula usando uma média de 200 leis criadas pela própria comunidade, a maioria proposta por alunos. Não se trata de ter ou não ter regras, mas na possibilidade de criá-las, abandoná-las e a liberdade de trazer um assunto à pauta quantas vezes for necessário.

Os alunos de Summerhill têm garantido a sua liberdade individual de escolher, desde que esta liberdade não implique restringir a liberdade de outros. Ex-alunos são reconhecidos por serem auto-confiantes e não terem medo da autoridade dos adultos, tomarem suas decisões e refletirem para propor decisões para um coletivo. Isso somado a saber a importância de ter regras para uma comunidade poder funcionar bem.

Colégio Interno

Esse talvez seja o maior choque para os brasileiros. Para muitas gerações, colégio interno é sinônimo de castigo ou de maltrato- “Se não se comportar, mando para um colégio interno!” diz a mãe naqueles momentos de estresse ou, “Imagina que vou mandar o meu filho para um internato” diz o pai olhando para o filho vulnerável. Hoje soma-se ao sentimento de castigo o progressivismo: prega-se que a participação dos pais e da sociedade são essenciais para o desenvolvimento da criança³.

Ainda assim, se você perguntar por aqui, nenhuma criança trocaria estar aqui por nada. Muitas delas tiveram experiências em outras escolas ou de serem ensinadas em casa antes de vir para cá e prezam a sua liberdade e o seu espaço ainda mais.

E o relacionamento com os pais? Continua ótimo – ficam com a família 4 meses por ano além das visitas em alguns fim de semana. Uma mãe que mandou seus 6 filhos para Summerhill explica aos seus conterrâneos indignados: “quando eles estão em casa posso ficar 100% com eles”.

Alguns poucos chegam e não se adaptam a morarem longe dos pais. Arrisco dizer que na maioria destes casos a má adaptação é dos pais e não da criança. Tanto que filhos de ex-alunos chegam aqui e se sentem em casa. A escola tendo 90 anos, temos até netos de ex-alunos.

Bala de Prata

A expressão bala de prata foi adotada como uma metáfora para designar uma solução simples para um problema complexo com grande eficiência⁴.

Em todos os tópicos de fascínio e objeção acima, uma coisa é certa, existe uma procura geral para encontrar as características de um sistema ideal, de uma estrutura e princípios que sejam universais e que mudem a educação para sempre. A decepção é certa – não existe bala de prata para esta questão e insistir em procurá-la parece ser caminho para desistir de contribuir.

Summerhill desde 1921 é ainda uma contribuição e uma inspiração para a geração de formas plurais de educação. Por sorte não é a única e também não proclama ter um formato que sirva para todos, mas que certamente serve para a grande maioria dos que decidem vir para cá. Gostando das características acima ou não, Summerhilll funciona assim, e funciona.

Vida em Comunidade

Acho que a maior contribuição de Summerhill é a possibilidade de as crianças estarem em uma comunidade que tem um mecanismo de participação claro e inclusivo. Outras características me parecem mais circunstanciais e a serviço do funcionamento desta comunidade que tam como valor primeiro o respeito à liberdade individual das crianças.

Além da democracia, outros formatos de decisão podem e devem aparecer, gerando escolas que funcionem com outros mecanismos. A própria escolarização em si está em cheque⁵ e os espaços de aprender são mais plurais. Muito se tem a ganhar com essa diversidade, desde que os espaços diversos contenham diversas vozes.

Minhas críticas ao ensino em casa do jeito que vem sendo inserido no Brasil está baseada não na falta de socialização da criança, mas de ela estar exposta a uma diversidade de vozes e interações que não apenas a dos pais.

Existem outros processos de aprendizagem fora da escola que variam de homeschooling a unschooling radical em que a criança tem espaços de interação relacionais que vão além do círculo familiar. Procure e surpreenda-se.

Livro com Entrevista com Ex-Alunos de Summerhill

After Summerhill

Recomendo a leitura deste livro. Por enquanto só está em inglês. Nele constam entrevistas com ex-alunos da escola e há um bom balanço de depoimentos contando tanto os impactos positivos quando os negativos na vida das pessoas que estudaram aqui.

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from nbcdfw.com

Baniram as sacolas plásticas. E agora?

Bansky e Sacola Tesco

Adoramos a sacolinha!

Sim, eu sou a favor de banirem sacolas plásticas dos supermercados. Mas o que poderia parecer uma decisão óbvia num mundo onde a humanidade entende mais o impacto causado pelo acumular do plástico no ambiente, virou tema de discussão por ter um processo de implementação mal administrado pelo governo municipal.

Esse tipo de proibição tem algumas características similares da decisão do governo de que teríamos que passar a usar cinto de segurança nos automóveis. Todo mundo pode compreender rapidamente porque o uso do cinto e a diminuição de plástico não-reutilizável traz benefícios (a ABIEF, claro, discorda). Como no caso do cinto, mesmo em face a uma mudança compreensível, reclamamos.

Estamos acostumados a pegar um monte de sacola de plástico e no começo vai ter um monte de gente contra mesmo. Sacola de plástico não incomoda muito, mudar o costume sim. Vai passar. Assim como passou nos países onde isso já é lei.

Mas será que é só a quebra de costume que está fazendo as pessoas reclamarem? Eu acho que não. Também pesa o fraco processo de informar e conscientizar o cidadão do porquê das mudanças.

Segundo noticiou a Veja em maio do ano passado, não só teve bastante tempo para que pudéssemos todos saber dessa mudança como existia uma (fraca) forma de divulgação relacionada com o uso de sacolas renováveis. Muito cidadão, que não acompanha o que aprova a câmara municipal, foi pego de surpresa 7 meses depois da lei ter sido aprovada.

O que me parece ter sido mal feito não é a lei (que repito acho que deve estar aí), mas o governo achar que ter uma placa informativa é suficiente para que o consumidor conhecesse e tivesse tempo de discutir o que se discute hoje ANTES da lei entrar em vigor.

E as discussões de que isso é uma forma de supermercados ganharem mais dinheiro? Eu duvido muito. Claro que na mudança de uma política pública a iniciativa privada vai fazer o que gosta, maximizar os lucros. Para ir contra essa palhaçada de usar mudança para encher o bolso basta fazer uma coisa bem simples: desenterra aquela sacola da vovó e leva para o supermercado.

O jornalista André Trigueiro escreveu um artigo que mostra que o país é o paraíso dos sacos plásticos. O pessoal da ABIEF vai ter que aprender a mudar o foco do negócio por que as coisas estão mudando. A empresa Kodak, que não mudou o foco rápido o suficiente com a chegada das câmeras digitais, pediu concordata. O jeito de lidar com o ambiente mudou e com ele a economia.

Sacolas plásticas são um passo. Haverá mais.

Agora me diz, o que você acha?

from dailyfootballnews.org

Visca Barça! O que os faz fazer bonito?

É uma satisfação poder ver uma atuação artística bem feita, um esporte jogado com maestria ou um produto de um artesão de primeira – mesmo sendo belezas distintas, tenho a sensação de que chamam a atenção por motivos semelhantes.

É uma beleza da produção humana, que requer criatividade somada com anos de trabalho e aperfeiçoamento de uma pessoa ou uma equipe. É o criar e recriar que resulta e é resultado de constante aprendizado. Qual é o caminho para desenvolver essa beleza? O que nos faz fazer bonito?

O que me apresentou esta beleza hoje foi o futebol do FC Barcelona. Poderia ser o encanto de um brasileiro que viveu sempre vendo futebol. Talvez o encanto de quem morou em Barcelona e pôde sentir a paixão dos torcedores. Poderia ser, mas acho que não é por nada disso. Fiquei impressionado porque esse time joga bonito, um bonito que eu ouvia na emoção da geração que assistiu jogarem os grandes do esporte.

E o mais impressionante é que essa forma de jogar bonito não foi uma decisão tomada na reunião do começo de temporada, nem num treinamento motivacional de fim de ano e muito menos resultado da contratação de estrelas milionárias do exterior.

Não, esse jogar bonito foi uma caminhada de pelo menos 30 anos de trabalho, alinhando sonhos e pragmatismo. Trinta anos, tempo que para cada um de nós é uma eternindade, que para o universo é irrelevante e que para a beleza é o tempo que leva.

No caso do Barça, o Centro de Treinamento La Masia de Can Planes trabalha com aprendizado hoje para colher resultados amanhã. Não só treinando para o jogo de amanhã, mas para o clube da geração seguinte.

Bom e barato. Barato? Mas não fica mais caro ter centro de treinamento? “Bem, gasta-se algum dinheiro. Mas seguramente é muito menos do que custaria a qualquer um contratar hoje Messi, Xavi ou Iniesta.”, disse o diretor técnico do centro de treinamento do Barça.

Sonhar em uma forma de jogar diferente e ter a disciplina de planejar o caminho para este sonho é um mérito tão grande quanto cada belo gol da equipe do Barcelona. Claro que isso não fica só no futebol, mas no país do futebol isso ficou claro para muita gente.

Leia mais:

from wikipedia

Por Quê #Occupy? – Além da Democracia Política e do Anti-Capitalismo

#Occupy Poster

Estou bem isolado dos centros urbanos. Tudo o que eu tenho ouvido sobre #Occupy tem sido de amigos e da mídia. Tenho perguntado sobre o local, as conversas e o sentimento de estar lá, tudo para poder entender um pouco mais.

Apenas com essas impressões, imaginei um #Occupy que talvez não seja o que é, mas um que com certeza pode ser. Imaginei as pessoas ocupando espaços públicos para gerar conversas e emitir opiniões sobre temas que são do interesse público, mas que muitas vezes se escondem em salas de reunião privadas.

Imaginei uma forma participativa e crítica de entendermos como funciona nossa sociedade. O que talvez seja para muitos um espaço de protesto, vejo também como um espaço de entendimento. Entendimento porque as conversas não necessariamente tem que trazer uma alternativa pronta ou criá-la em alguns meses, mas são conversas que exploram o novo e não só criticam o velho.

Mesmo tendo causa aparentemente difusa, #Occupy é bem diferente de rebeldes sem causa – os sintomas geradores do movimento estão claros (assim como está não pode ficar!) e a causa e as alternativas estão sendo discutidas (o que podemos fazer de diferente?).

O grande poder está nas pessoas terem um espaço para se perguntar se essa democracia é realidade ou ilusão.

Pensei comigo – nunca antes na história deste planeta (ops!) tivemos espaços públicos sincronizados para conversar sobre o funcionamento da nossa sociedade e seu modus operandi. Nunca tivemos espaços onde os participantes de uma democracia política sentem que pode ser que haja algo mais a participar, algo mais a entender e algo mais a intervir diretamente.

E estes espaços não são uma afronta direta à democracia, mas com certeza são uma afronta à “ilusão democrática”, a idéia de que participação se restringe à esfera política, traduzida na linguagem atual na forma de “voto consciente” ou fazer parte de um partido ou causa política.

Acredito que o grande poder de #Occupy vai além da crítica ao capitalismo e das plataformas de “outros mundos possíveis” do Fórum Social Mundial. O grande poder está nas pessoas terem um espaço para se perguntar se essa democracia é realidade ou ilusão. Pessoas que estão lá ou acompanhando com interesse têm seus motivos mais diversos para estarem descontentes com o ir e vir da democracia política atual.

E o que acontece se nos desiludimos?

Impossível prever o que pode acontecer quando finalmente estivermos desiludidos com o que talvez o futuro chame de modelo restrito de participação. Para ir além, no entanto, não basta a desilusão de um grupo ou uma bandeira política, é essencial nos desiludirmos em conjunto.

#Occupy parece ser a preparação do coletivo para criar uma nova forma de participação, uma forma que tenha a nossa cara e ao mesmo tempo a de ninguém. Talvez seja a primeira forma de outras diversas que vão redefinir como nos organizamos em sociedade.

by nolifebeforecoffee

Relatório da Inspeção a Summerhill

Office for Standards in Education

No começo do mês de setembro deste ano tivemos a visita da OFSTED, órgão britânico que inspeciona as escolas privadas e públicas de todo Reino Unido. Falei um pouco da expectativa da visita dos inspetores em Visita da Ofsted.

A visita foi boa e o relatório saiu essa semana – então cartão verde para comentar sobre ele. Em 1999 a Ofsted tentou fechar a escola sob comando do governo trabalhista de Tony Blair e, como disse no artigo acima, falhou depois da escola levar o caso à justiça.

A implantação de um currículo nacional no Reino Unido segue sendo criticada por professores e educadores britânicos.

Desde 1999 a escola – agora contando com especialistas próprios que acompanham os inspetores – teve inspeção em 2003, 2007 e a deste ano. As avaliações foram ficando mais positivas. Esta última mais do que todas.

A única discordância relativamente grande foi na avaliação e acompanhamento do aprendizado das crianças.

If We Can’t Measure, We Can’t Manage

“Se não conseguimos medir, não conseguimos gerenciar” – esse é uma fala constante em processos industriais e de negócios. Os inspetores chegaram aqui perguntando sobre nossas medidas para gerenciar o aprendizado das crianças.

O pedido faz sentido em sua forma bastante sutil: se tivermos dados de como os alunos vão progredindo, tanto fora quando dentro da sala de aula, vamos poder gerenciar a necessidade e caminho de aprendizado de cada um.

Acontece que essa estrutura de medir e gerenciar não funciona em Summerhill. Não funciona porque não gerenciamos aprendizado nenhum – o ideal da escola dá aos alunos a liberdade de viverem sem serem medidos, quanto mais gerenciados.

Seguir medindo o progresso é intervenção considerada desnecessária.

Vivemos em comunidade. Conhecemos as crianças por nossas interações com elas e com a comunidade como um todo. São as histórias desta convivência que nos dizem que elas estão progredindo nos possíveis bloqueios e problemas que elas venham a enfrentar.

Isso quer dizer que não existe nenhum documento, foto ou gravação em vídeo que sirva de evidência para um belo relatório. Evidência são histórias geradoras de sentido entre nós, os participantes desta comunidade.

Aqui não queremos gerenciar, então não medimos. Em lugar de medir para identificar e intervir, preferimos a relação de amizade e confiança que permite histórias autênticas serem expressas e compartilhadas.

Não creio que a forma de ver escolas com a qual os inspetores estão acostumados permita esse tipo de compreensão. Um dos especialistas da escola, tentando escrever na linguagem mais próxima a eles, disse: Summerhill é uma escola do tipo “familiar”, onde as coisas se resolvem colocando todo mundo na mesma mesa. Fair enough.

Veja o Relatório Publicado pela Ofsted (Em Inglês)

from dkilim

Qual é a Graça? A Vergonha do Verdadeiro Humor

Uma das coisas que eu vejo mais comentada nas redes sociais e nos jornais vindo do Brasil nas últimas semanas se relaciona com nosso constante humorismo chinfrim.  Não que ele seja novidade, sempre rolou, mas atualmente tem tido mais mídia e discussão. Uma coisa continua igual: não só seguimos assistindo ou lendo um péssimo humor como ainda achamos sem graça quem reclama.

A Vergonha do Verdadeiro Humor

Nunca consegui entender como é que achavam graça dos programas do tal do CQC. Lembro que muitos meses depois de eles irem ao ar eu vi um dos programas do youtube – mais ou menos assim: os integrantes do programa doam uma televisão para uma secretaria de educação de uma cidade para depois darem uma de repórter investigativo mostrando a corrupção do lugar.

O mais inteligente do programa-baixaria é o que está por trás do óbvio – claro que ninguém em bom juízo vai dizer que corrupção tudo bem. Então ao fazer o programa os caras estão prestando um serviço contra a corrupção, não é? Pois é, não acho – nada de errado em mostrar os podres do país, mas os problemas que temos não são entretenimento para serem vendidos como tal. Assistia o programa triste porque se rouba, mas mais triste porque se vende a roubalheira como humor. O Zé, que não rouba, compra a roubalheira pela televisão.

Passa alguns anos e esse mesmo tipo de babaca faz uma piada que é infame para um certo grupo de pessoas e a coisa muda: o humorista passa de engraçado a preconceituoso. Se você não faz parte de nenhum grupo (ainda) que se sente insultado, ótimo – espere até quando o preconceito ou o mal gosto for com você.

mas o humor tem a capacidade de gerar tantas novas possibilidades de quebrar o status quo, para que usá-lo para ser válvula de escape de um preconceito que é o status quo?

Vi essa reportagem na Folha de S. Paulo hoje. Não cheguei a ver os vídeos do programa da Globo, mas li os comentários com interesse. Veja lá. Também não acho que o programa tem o poder de gerar os abusos sofridos pela menina na reportagem – e muito menos que se trata de proibir que se transmita a porcaria televisiva. Se ela está lá é porque tem gente que compra.

O que me impressiona é que as pessoas querem ver programas que retratam preconceitos e salafrarismo de forma jocosa, mas ai de você se ousar dizer que elas são preconceituosas. Voam no seu pescoço como se fosse insulto mortal.

Não sou a favor da seriedade de todas as coisas – acho que temos que fazer piada de nós mesmos e não nos levar tão a sério – mas o humor tem a capacidade de gerar tantas novas possibilidades de quebrar o status quo, para que usá-lo para ser válvula de escape de um preconceito que é o status quo? Piada assim é a vergonha do verdadeiro humor.

Eu consigo imaginar um quadro como esse fazendo piada preconceituosa sobre o tema da reportagem. Não sei se fez, mas nem interessa. O que interessa é como damos energia para esse tipo de piadas e ao mesmo tempo ficamos horrorizados quando a piada toca na nossa casa, fala de algo que para a gente não é engraçado. A verdade é que condenamos estes preconceitos na luz do dia, mas de noite consumimos racismo e sexismo na forma de humor.

Tudo bem se formos a favor da liberdade de expressão e achar que tudo pode ser dito – o que não está nada bem é ser a favor da liberdade e seguir comprando os mesmos preconceitos de sempre mascarados de humor.

Humor de Verdade e o nosso Carnaval

Tem tanta coisa no nosso país que é Humor de verdade. O Carnaval, não aquele da TV, mas o da rua, é um momento de festejar de igual para igual, de propor coisas diferentes pelo ridículo, pelo absurdo, pela brincadeira e o divertido. Tem Humorista que é de morrer de rir – que tira o ser humano do mesmismo e mostra oportunidades de algo novo que só aparece quando a gente sai do sério.

O Carnaval também é responsável por fornecer uma visão alternativa positiva. Não é simplesmente uma desconstrução da cultura dominante, mas uma forma alternativa de viver com base em um padrão de jogo/brincadeira. Pressupõe uma humanidade construída de outra forma, como uma utopia da abundância e da liberdade. O Carnaval elimina as barreiras entre as pessoas criadas por hierarquias, substituindo-as por uma visão de cooperação mútua e igualdade.

Se ao menos fossemos rir de nossos preconceitos ao invés de rirmos com eles…

Deve-se acrescentar, no entanto, que nem todo ato carnavalesco é emancipatório, porque às vezes ele pode desinibir desejos reativos decorrentes do sistema. [A importância do Carnaval] é por vezes utilizada para defender textos que reproduzem os valores dominantes, mas os faz de um modo ‘irônico’ ou ‘humorístico’. Isso acontece devido às camadas de proibições: o sistema muitas vezes promove algo (como o sexismo), mas ao mesmo tempo inibe a sua expressão irrestrita.

Citações de: Bakhtin: Carnival against Capital, Carnival against Power

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by JLM Photography

Bullying no Sistema Escolar

Nunca trabalhei em uma escola do tal ‘sistema escolar’, mas tenho me surpreendido com o que ouço e leio de alguns colegas sobre a relação social na escola e o bullying.

O Poder e o Bullying

Estruturas de poder são comuns em todos os sistemas humanos. Na escola, a pressão para ser ‘cool’ e estar ‘por dentro’ é um índice de poder, assim como o sucesso e a carreira são índices em nossa sociedade.

Não acho que as crianças são bullies porque são mal educadas ou malvadas por natureza. O convite a elas é frequente, não só na escola, mas talvez ajudado pela estrutura escolar. Como seres humanos, lidar com essas situações são parte do processo de crescimento da criança: auto-estima, auto-aceitação, respeito pela diferença do outro, etc. Sempre haverá uma situação de bullying. Como lidar com essas situações?

Lidando com o Bullying

Alguns professores fazem um acordo tácito com o bully da mesma forma que um senhor de engenho fazia com um capataz. O acordo serve para poder manter o controle da sala de aula, já que lutar contra o grupo de bullies pode significar um caos geral, situação pior do que ceder ao hierarquismo em sala de aula.

Nesse caso pode-se dizer que a escola, até um certo limite, dá suporte ao grupo de bullies. O grupo ajuda a manter o controle que é peça chave do atual sistema escolar. este que, se não gera o bullying, acaba por contribuir para a preservação desta prática.

Os professores que se colocam energicamente contra às ações do bully podem ficar com o trabalho extra de exercer mais controle, mais pressão e eventualmente mais repreensão. Mesmo que o professor e o diretor, representando o sistema escolar, sejam contra o bullying, na prática a diferença não é muita. O sistema funciona mais ou menos como o que tenta prevenir que se cole na prova – supervisão constante e sempre ineficiente.

A verdade é que nem o professor nem a direção da escola tem o poder de acabar com bullying – panos quentes e relações de autoridade dando lição de moral não funcionam. Muitos exportam a violência escolar para casa – como não tem o poder de punir a criança, física ou emocionalmente, exportam a violência para onde a sociedade ainda acha aceitável – para casa. Alguns pais, infelizmente, disciplinam os filhos como a escola os disciplinava há 100 anos.

E tem jeito?

E tem jeito? De acabar com o bullying não, mas de saber lidar com ele sim. Não o professor ou a direção da escola, mas os próprios alunos. Não basta o sistema escolar ser contra o bullying, é fundamental que a comunidade – principalmente os alunos – sejam contra esse tipo de atitude.

Entender o outro e a comunidade seja bem menos relevante do que conhecer sobre alguns assuntos.

Talvez o problema do sistema escolar atual seja que entender o outro e a comunidade seja bem menos relevante do que conhecer sobre alguns assuntos. A atitude em relação ao aprender consciente na escola foca em absorver ou descobrir conhecimentos e pouco a experimentar o que é relacionar-se com o outro.

Conversa entre Peers

Aqui na escola também tem bullying. A diferença é que aqui temos um espaço toda a semana para que os alunos possam trazer essa questão, discuti-la e perceber que, como ninguém quer ser alvo de bullying e nem ver um colega nessa situação, essa atitude é inaceitável. As crianças enfrentam o bully porque conseguem entender o mal que ele faz a uma pessoa e à comunidade. O bullying é lidado da única forma que poderia ser: por uma conversa entre os peers. Autores, receptores e quem presencia o bullying pode falar e ouvir os demais. Todos decidem junto a melhor ação a tomar.

Não sei como essa solução pode acontecer em uma escola que funciona como um grande sistema de ensinar e não uma comunidade de aprender. O grande sistema não pode se livrar dos bullies, alguns dizem que até se apóia neles. A verdade é difícil de encarar: a instituição do aprender como ela é tem o bullying como subproduto.

by 55Laney69

Criatividade Refinada

Isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além.

Paulo Leminsky

Tive uma conversa interessante sobre criatividade e seu impacto na nossa sociedade hoje ‘mais complexa’. O que mais me surpreendeu foi a ideia de que criar é um ato intencional e exceção aos nossos atos diários e mundanos. Apresentei o pensar contrário.

Criamos igual Respiramos

E se criamos tanto e tão naturalmente que nem se nota? Como respirar que só percebemos fazendo meditação e yoga. E se for tudo um ato natural do nosso dia a dia, que não requer intenção ou treinamento? E se nosso próprio falar for um ato de criação contínua e o diálogo com o outro uma verdadeira galeria de arte?

Não é de se espantar que o ato de criação seja uma exceção e não uma regra. Não se vê criação e criatividade no mais básico dia a dia onde ela está presente, acontecendo sem controle e sem intenção. Coloquei a hipótese de que crianças – as quais nunca negamos ser criativas – não tem intenção de criar ou precisam de algum tipo de controle. Criam como se fosse inevitável, resultado de estarem vivas.

Intenção de ser criativo não vale de nada. Para criar basta Ser. Quanto mais somos e nos deixamos criar, mas refinada nossa criação.

O que nos ajuda a ser mais criativos?

Acho que nada ajuda, tudo o que é apresentado por aí só atrapalha. Nos ajuda sermos nós mesmos de forma mais autêntica. Como isso de ser nós mesmos tem sido algo fácil de esquecer, então volto atrás no que acabo de dizer: tudo o que nos ajuda a lembrar como somos nos ajuda a nos ver criativos.

Inquietutes e Pressão para Criar

Acredito que criamos em resposta a o que vivemos, mas não respondemos criativamente a uma intenção pensada, simplesmente criamos e depois interpretamos nossa criação, buscando o que talvez tivesse nos inspirado.

Apesar de achar que nossas inquietudes, que as temos como parte do nosso viver, possam ser depois conectadas ao ato criativo, isso mais é uma interpretação do que foi do que uma intenção do que será. Não criamos intencionalmente.

Também não acho que a afirmação de que a pressão libera a criatividade seja certa ou errada. Só acho que a pressão convida de maneira mais veemente a deixarmos o que não funciona para trás em busca da criação. Aí pressão serve mais para inibir os bloqueios que aprendermos a criar, inibir as negações de que criamos, e ajudar-nos a funcionar como seres que criam sempre.

Se a procura de uma negação à criatividade é de alguma ajuda, colocaria que o oposto de criar é falhar em reconhecer a existência, é negar a criação na medida que ela se apresenta, é dizer: é que eu não sei desenhar.

Ensinar criatividade também não dá: veja também o artigo: Escolas matam a criatividade?

Veja mais…

  • Sobre Criatividade e Pressão de Tempo no vídeo Deadlines