Quem Manda Nessa Conversa, Afinal?

by Rainbirder

Participei na semana passada da conferência internacional em educação democrática. Pela primeira vez em 20 anos os organizadores resolveram arriscar uma conferência sem painéis e palestrantes e gerar espaço para oficinas paralelas como em um Open Space.

A transição de um formato tradicional para este mais diferente foi controversa. Muita gente compartilhou sentir falta de painéis em que alguém tomava a frente para compartilhar experiências de sucesso ou insucesso, ou para apresentar uma ideia nova e estimulante. Outros olhavam para o programa atônitos – uma quantidade grande de opções os deixava ansiosos.

Quando perguntado do que achava da conferência, disse que este sistema de escolha e espaços abertos era o único tipo de conferência para a qual sentia que valia a pena ir, mas que entendia as frustrações atreladas ao modelo.

A ansiedade frente às opções é mesmo questão de ter estado e acostumar-se a espaços assim. Vale lembrar que estar em uma conferência, em um lugar específico, implica abrir mão de vários outros espaços acontecendo em outros lugares. Sempre vamos fazer escolhas.

Ter experimentado encontros assim no passado, como eram os Fóruns Sociais Mundiais que se espalhavam por toda Porto Alegre, nos faz ficar em paz com onde estamos e aproveitar um fluxo de aprendizado mais tranquilo e profundo.


Já a falta de gente tomando a frente das oficinas foi uma falha. Uma ideia bem intencionada dos organizadores, é verdade, mas uma falha. Em vez de se comprometerem por inteiro com um formato de Open Space, resolveram levantar de antemão, em um fórum online, quais eram os assuntos sobre os quais as pessoas gostariam de conversar e montaram uma grade de oficina com eles, cada uma com um facilitador aleatoriamente apontado.

Uma falha porque não havia nas oficinas ninguém que era realmente o anfitrião da conversa. O tópico, pré-pronto, não tinha uma pessoa por trás que trazia a clareza e curiosidade em uma pergunta, uma experiência, uma ideia.

A falta de uma pessoa comprometida com explorar o conteúdo presente transformou a conversa em um jogo de definições: o que será que realmente quiseram dizer os que pré-escolheram esse tema? Por que mesmo estamos aqui? Com o tempo passado para se definir com clareza do que se tratava o espaço, acabava-se a oficina e a sensação de superficialidade pairava no ar.

Escrevi em outro momento sobre o desconstruir do nosso impulso de ficar sentado em uma sala na qual não estamos tirando proveito da conversa. Isso gerou um convite que em Open Space é representado pela lei dos 2 pés.

Também comentei a importância de se ter um responsável pelo convite e pelo espaço – algo que não aconteceu nesta conferência.

Essa falha talvez seja um reflexo do confundir democracia com responsabilidade diluída, democracia com ser representado. O pré-forum teve seu conteúdo democraticamente escolhido e representado na conferência – não colou.

Faz todo sentido a pessoa poder escolher em que espaço quer estar, ter a oportunidade de ter a conversa que quer ter com um grupo menor e engajado no mesmo micro-tema que ela.

O Anfitrião é aquele que cria as condições que dão vida a um convite.

O que deixa de fazer sentido é não ter o indivíduo ou grupo de pessoas que se responsabiliza pelo convite e cria as condições que dão vida a ele: estou convidando para conversarmos sobre essa pergunta, para debatermos essa experiência ou, simplesmente, estou convidando para que assistam a uma palestra minha.

Não ter um responsável por cuidar do espaço e do convite descaracteriza um espaço intencional de aprendizado. Não é dizer que não se possa aprender em situações não intencionais, muito pelo contrário: talvez tenhamos algumas de nossas experiências mais profundas em espaços e momentos em que menos esperamos. Porém uma conferência é, afinal, um espaço intencional que já convida para uma conversa específica, temática.

Não restrito a espaços intencionais, mas parte dele, mora a importância de nos co-responsabilizarmos pelo aprendizado próprio e tornar-nos responsáveis nos diversos papéis que escolhemos estar, talvez como anfitrião ou como anfitriado, talvez como um dos que convida ou como um dos convidados.

Aprender não admite representatividade – só você pode representar seu caminho de aprendizado e este caminho está intimamente ligado por tornar-se responsável por ele, independente do papel que esteja.

Convidar também requer ser responsável. Só convida quem está imbuído do espírito do tal convite, alguém que, mesmo que convite por um coletivo, não o representa, apenas carrega uma parte fundamental dele.

O conteúdo da conversa está intimamente ligado à capacidade de quem anfitria em trazer o espírito do que se quer conversar. De aí em diante muito do que acontece é belíssimamente incontrolável.

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3 replies
  1. Jose Assumpcao
    Jose Assumpcao says:

    Caro Cuginotti, bom dia!
    Muito interessantes as tuas observações. Gostaria de propor dois pontos para debate e aprofundamento das questões.
    Primeiramente, sabemos que o Open Space por definição é um espaço onde, entre outras coisas, cada um é responsável pelo próprio aprendizado, portanto, nas salas dos micro temas, me parece que o que ressaltou aos olhos foi o fato de que nem todos nós estamos acostumados a esta liberdade, e quando não temos alguém em quem nos apoiar, simplesmente ficamos rodando sem conseguir decolar!
    Segundo lugar, mesmo não havendo facilitador ‘de fato’ nos locais, me parece que, mais uma vez, ninguém se predispôs a assumir o papel de facilitador, talvez faltou uma atitude mais pro-ativa de quebra de paradigmas…
    O que quero ressaltar é que a plateia certamente era composta de pessoas altamente preparadas e engajadas no tema da educação, se dentre estes encontramos as dificuldades que você menciona, o que podemos esperar do restante da população Brasileira, que já há anos não pode contar nem com a educação básica? Esta pergunta certamente poderia nos vir à mente!
    Entretanto, o que tenho observado é que quanto mais humilde a situação individual, mais esforço será empregado para aprender o que for possível, quando a chance se apresenta, ao contrário do que o pensamento lógico nos induz a concluir.
    O que seria da pedagogia de Paulo Freire, se todos os miseráveis do mundo ficassem sempre a espera de soluções prontas, ao invés de buscar seus próprios caminhos a partir da alfabetização.
    Grande abraço.

    • Augusto Cuginotti
      Augusto Cuginotti says:

      Olá Zé – obrigado por sua reflexão.

      É verdade que a platéia era composta de pessoas com bastante conteúdo no tema educação. No entanto, acho que independente da preparação e do protagonismo de cada um, ainda assim facilitação não basta – acredito que quem convida para o espaço tenha que ter internalizado o propósito da conversa, caso contrário a coisa fica superficial mesmo.

      No caso da conferência, ninguém presente havia convidado com intenção para os temas apresentados. Esforço e protagonismo individual dos participantes não iria adiantar – trata-se de uma questão estrutural, não de escolhas pessoais. Faz sentido?

      Vale dizer que nem sempre ter o propósito claro significa que o anfitrião seja conhecedor do tema – posso ser ignorante em culinária e ser um bom anfitrião-curioso da pergunta: como faço um camarão na moranga?

  2. Maria Antonia d'Arce
    Maria Antonia d'Arce says:

    Augusto querido,
    sempre gosto de receber suas reflexões!!! É um “alento” no meio de tantos e-mails sem sentido!!
    Sobre a questão levantada, ainda vou pensar um pouco mais antes de dar minha opinião.
    bjo/Mana

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