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Resultados em Colaboração

Apenas terminado um outro dia sendo anfitrião de um grupo de pessoas fazendo seu trabalho em colaboração.

quando se julga que tudo foi bem

Nestes trabalhos, quando as coisas vão bem, pode ser que o ego convide para que sonhemos que esse sucesso tem a ver com quão maravilhoso é nosso trabalho e quão bem estávamos hoje.

A experiência nos mostrou que sucesso com grupos não é resultado nosso: as pessoas são mesmo boas trabalhando juntas.

Ao mesmo tempo, em muitos casos, nosso trabalho é essencial como um instrumento para sustentar a experiência de colaboração.

Essencial somente para nos atentarmos a que os padrões de controle e hierarquia excessivos voltem a emergir. Normalmente eles aparecem em conversas supostamente colaborativas, mesmo sem termos consciência, porque são padrões aprendidos e revisitados por tantas vezes que por fim ressurgem como um hábito.

quando se julga que não foi assim tão bem

Quando as coisas não vão assim tão bem podemos escolher o caminho de carregar tudo nas costas e culpar nossa incompetência ou inabilidade – muito do mesmo comportamento “o resultado tem a ver comigo”.

Ou ainda podemos culpar uma fonte externa como responsáveis pela insuficiência. Assim, por vítima que somos, não temos culpa de nada.

Independente da escolha, ambas carregam em si o pressuposto de um processo simplificado em relações de causa e efeito e no qual podemos encontrar alguma coisa ou alguém para culpar e, claro, consertar.

em todo caso

No fim, sabemos que o resultado não tem a ver conosco e que ao mesmo tempo temos um papel essencial nele.

Somos insignificantes em relação ao que vai se desenrolar e também essenciais por criarmos contexto e container para o processo.

Contexto, Container e Conteúdo

Neste trabalho agimos procurando o entendimento e a escolha das condições que sao necessárias e também prestando atenção enquanto as coisas se desenrolam.

Podemos olhara para ele através de 3 Cs: Container, Contexto e Conteúdo.

o encontro começa antes do encontro

Antes mesmo de encontrar com o grupo face a face, estamos em plena atividade criando contexto e container para a conversa, normalmente com um bom tanto de trabalho prévio, algumas entrevistas para adquirir a linguagem, uma boa ponderação de espaço e estrutura, etc.

Aqui, ainda que a energia esteja diluída, é onde 80% da quantidade de trabalho acontece. Contexto e container farão uma importante parte do trabalho mais para frente.

e o foco do evento conversacional

Quando finalmente nos encontramos é hora de aplicarmos a arte de estar presente e escutar profundamente tanto o flutuar do contexto quanto o desenrolar do conteúdo, seja este expresso em emoções, ações ou conceitos. Esse momento é intenso energeticamente, mas contém menos trabalho quantitativo.

Uma pessoa de fora não vê muito sendo feito, já que muito do nosso trabalho é ficar ali parado, prestando atenção.

E todo o conteúdo que colhemos juntamente com o grupo está conectado a todos os presentes e também ao contexto e o container criados. É um resultado em colaboração.

Leia Mais

  • Don’t Just Do Something, Stand There!: Ten Principles for Leading Meetings That Matter – Marvin Weisbord e Sandra Janoff – e-book na Amazon
  • The World Café: Shaping Our Futures Through Conversations That Matter – Juanita Brown, David Isaacs e a Comunidade do World Cafe – e-book na Amazon

Encontros Participativos com Clareza de Propósito

from ashtarcommandcrew.net

Tenho minhas inquietações, coisas que formigam o corpo para acontecerem. As maiores são prenúncio de alguma mudança que pode causar ansiedade, muitas vezes uma infundada fantasia de que o que está para mudar não vai caminhar para boa direção. Fantástico mesmo é que normalmente eu não tenho claro o que é “boa direção”. Fantasia completa.

Vejo a mesma fantasia trabalhando com os outros para criar e planejar espaços de encontro. Quem chama por vezes tem uma quantidade imensa de inquietações e pouca clareza de propósito e/ou quer saciar muitas vontades em um só espaço.

Gerenciar ansiedades é grande parte do trabalho. Fico imaginando casamentos – quem ajuda os noivos a organizá-los deve usar a energia assim:

energia_casamento

De Inquietações ao Propósito

A primeira parte do trabalho é sempre mais cuidadosa, e as vezes mais longa, do que as demais. Clarificar o propósito para nós mesmos e para a pessoa com quem estamos trabalhando é fundamental porque gera as condições de contorno da jornada que em seguida vamos criar.

Muitas vezes recebemos o chamado para ajudar a criar algo em que, na conversa, o propósito não está claro, é ambíguo ou, pior, são vários. A ansiedade aumenta também quando apontamos essa realidade – a sensação parece ser de que voltamos à estaca zero ao redefinir o porquê de tudo aquilo.

Ceder a essa ansiedade e assumir que está tudo ok é uma armadilha que eu me lembro já ter caído diversas vezes. Seja no começo da conversa ou no meio, agarrar no tronco de um bom propósito é fundamental.

Condições para Criação Coletiva

Para darmos espaço para que se criem caminhos coletivamente, é essencial darmos as condições de que direção estamos falando. A definição e clareza de propósito nos permite desviar a rota de acordo com os acontecimentos e ainda assim caminhar na direção que queremos.

A clareza inicial previne ter que dar direção durante, ação que é resultado de propósito mal formulado e gera frustração geral: “como assim? convidaram para participar, mas por esse caminho não pode?”

Deixar explícito a direção gera as condições para que os próprios participantes definam os caminhos que fazem ou não sentido.

Uma das riquezas de encontros abertos é justamente essa capacidade de adaptar ao que vai sendo criado, trilhando caminhos que ainda não foram mapeados. O papel do anfitrião é dançar com as mudanças de caminho e trazer consciência de mudanças que afetam a direção que se imaginou no começo de tudo.

Propósito na Voz do Participante

Depois de criada a clareza entre quem anfitria é chegada a hora de receber os participantes da jornada. Aqui também é essencial que se revisite o entendimento de propósito.

Em situações complexas em que múltiplos atores estão envolvidos e carregando suas inquietações particulares, é natural que, por mais que se clarifique o propósito no ato de convidar, ainda assim cada um fantasie o seu próprio.

Explicar o porquê de estarmos juntos logo no começo da jornada ajuda, mas o melhor mesmo é abrir um espaço inicial para que os próprios participantes possam explorar consigo mesmos o porquê de estar lá. Ao articular o propósito na voz do coletivo, permite-se um alinhamento e uma checagem de destino antes da partida.

Checklist Clareza de Propósito

  • Transforme inquietações em um propósito claro e único.
  • Cuide para que exista tempo suficiente para atender ao propósito definido.
  • Na hora, preste atenção.

Quem somos quando nos observamos?

by Alejandra Mavroski

Olhar para si mesmo é olhar para as reações que temos quando percebemos acontecimentos ao nosso redor. Essas reações são aqueles pensamentos, julgamentos, sensações e emoções que aparecem de surpresa e que vamos re-conhecendo aos poucos.

Quem somos quando nos observamos? Somos essas reações, com toda maquiagem que produzimos sobre elas, somado a uma caixa preta de declarações recursivas que gostamos de exercitar para poder, inclusive, aplicar boas maquiagens nas reações que somos.

De forma mais direta fica assim: eu sou quando sou de surpresa. O resto é minha imagem de mim, maquiada para satisfazer meu desejo oculto de não ser eu mesmo. Sim, mais ou menos como no Facebook de quase todo mundo.

Muito se fala em olhar as coisas, pessoas e situações de formas diferentes, de inclusive nos olharmos de formas diferentes. O olhar do indivíduo não nos permite novas diferenciações. Simplesmente porque não estamos sendo de surpresa, olhar assim só serve de material para maquiagem do ser.

Só podemos ser de surpresa em relação. No relacionar com o outro temos a oportunidade de refinar nosso olhar para nós mesmos.

Assim, uma mudança minha e do meu mundo vem de prestar atenção no que sou no momento da relação com o outro. A mudança vem de algo que me descortina, mesmo que só eu mesmo possa ver a diferença. É algo que perturba o que tenho sido até então.

Em lugar de expandir o nosso olhar, melhor é aprender a prestar atenção no momento em que somos descortinados. Neste momento aprendemos sobre nós e refazemos o nosso mundo.

Manifestando uma Revolução de Segunda Ordem

Luiza Padoa and Juliherme Piffer

O protesto por si só não pode garantir uma visão de longo prazo para um país, de modo que o caminhar em linha reta das manifestações tem que ser re-configuradas em círculos de diálogo e novos padrões de democracia participativa. Isto é o que está acontecendo no Brasil.

Este texto foi produzido originalmente em inglês para OpenDemocracy – Transformation e sua versão original se encontra neste link. Obrigado Darlene Coelho pela tradução. Arte acima por Luiza Padoa e Juliherme Piffer


 

Como a energia de manifestações de rua pode ser utilizada para a transformação de longo prazo da sociedade? Como uma revolução pode gerar propostas concretas de mudança sem se reduzir a um discurso político?

Estas são questões que emergem de cada protesto, assim que os cartazes e cacetetes são baixados.. Respondê-las requer o que eu chamo de uma “revolução de segunda ordem.”

A partir de junho de 2013, muitas cidades brasileiras explodiram em uma onda de protestos de rua. Eles iniciaram por um aumento de sete por cento nas tarifas de ônibus, mas se transformaram em uma declaração mais geral de insatisfação pública com a situação do país: “Basta! “, o público parecia estar dizendo.

Os políticos se esforçaram para compreender e chegar a definições sobre o que estava acontecendo, e tentaram em vão identificar representantes dos manifestantes com quem pudessem falar. Após de milhões de pessoas permanecerem nas ruas por semanas, o aumento da tarifa de ônibus foi revogado, mas muitos brasileiros continuaram suas ações à medida que outros temas eram desdobrados e mais exigências eram feitas.

Muitos comentaristas e ativistas escreveram sobre estas experiências como um ponto de inflexão em potencial no Brasil, e tentaram explicá-las em termos do contexto econômico do país, dos gastos extravagantes para a próxima Copa do Mundo, e do poder das redes sociais para mobilizar manifestações de grandes dimensões.

As fotos dos protestos mostram milhões de pessoas nas ruas, demarcando um momento potencialmente histórico para o país. O que é interessante, para mim, é que estas imagens mostram um padrão comum de protestos de rua no qual a maioria das pessoas está olhando na mesma direção – marchando em linha reta, quase como uma divisão militar em ação. Mas as sociedades como um todo não funcionam dessa maneira (principalmente as democráticas), porque as pessoas não concordam com os detalhes de como a ordem estabelecida deve mudar após os protestos.

O protesto por si só não pode garantir uma visão de longo prazo para um país, de modo que o caminhar em linha reta das manifestações tem que ser re-configuradas em círculos de diálogo e novos padrões de democracia participativa. Isto é o que está acontecendo no Brasil.

Os brasileiros vão continuar a mostrar o seu descontentamento sobre um país que é conhecido por sua corrupção, e pelas enormes lacunas que existem entre ricos e pobres. Mas ao lado dos protestos públicos visíveis algo mais sutil está acontecendo: conversas em espaços públicos sobre a futura direção da sociedade.

Tais conversas representam uma revolução de segunda ordem. Elas têm o potencial para transformar o modo pelo qual a mudança social é construída, permitindo que novas histórias emerjam. E elas convidam os cidadãos a se apropriarem dos espaços públicos, a fim de explorar versões divergentes sobre a trajetória de seu país e formar novas compreensões coletivas.

By @David_EHG

Evento 1000 mesas em Israel

“Círculos de diálogo” como estes têm ocorrido em muitos outros lugares. Em Israel, por exemplo, mais de trinta cidades se reuniram ao redor de 1.000 mesas em 2011 para explorar as questões políticas e sociais que eles enfrentam. O principal espaço de diálogo (uma praça em Tel Aviv) foi transformado em um enorme salão com espaço para 5.000 pessoas. Da mesma forma, durante o tumulto na Grécia, que teve lugar entre 2010 e 2012, o público ocupou a Praça Syntagma, no centro de Atenas. Embora a ocupação não tenha produzido muito diretamente pelo caminho do diálogo, ela abriu caminho para surgirem outros espaços e conversas.

No caso do Brasil, conversas públicas deste tipo foram organizados em quatro grandes cidades, assim como em muitas localidades menores em todo o país. Em Brasília – uma dos primeiras a acolher esses diálogos – a iniciativa surgiu a partir de um grupo de pessoas que queriam explorar o que seria necessário para criar uma ponte entre a situação atual e o futuro que desejavam.

Percebi que seria uma conversa superficial se não tecessemos nossas idéias juntos, disse Sérgio

Em uma recente entrevista comigo, Sérgio Monforte, que estava envolvido em um desses círculos, explicou como o processo começou: “Nós estávamos sentados em plenário em um espaço público próximo ao Congresso Nacional”, disse ele, “e percebi que seria uma conversa superficial se não tecessemos nossas idéias juntos. “Monforte e outros propuseram a criação de pequenos grupos para explorar questões sem temas pré-definidos, e para suscitar idéias de ação. “Nem todos concordaram”, continuou ele, “por isso no início fizemos um grupo paralelo com o plenário.” As idéias foram colhidas para descrever a transição entre “o Brasil de hoje e o Brasil que queremos no futuro”, incluindo “a morte de petróleo “e construção de “redes de comunidades sustentáveis”.

Essas discussões iniciais também produziram uma série de pequenas ações conjuntas, como um vídeo para explicar como as leis são criadas e alteradas no Brasil; um exercício para ajudar as pessoas a conversarem entendendo os pontos de vista de cada um, e propostas sobre como outros grupos poderiam ser apoiados para sediar conversas semelhantes. Como resultado destas propostas, foi criado um guia de metodologia com base na experiência de Tel Aviv. Ele descreve o processo de conversa em grupo chamado World Café, uma tecnologia social que permite conversas acontecerem em uma grande escala, sem suprimir a diversidade de vozes presentes. No final do processo, os resultados da conversa foram apresentados de forma visual.

Por definição, [espaços públicos] é onde um legislador deveria estar – disse Ricardo Young

Em São Paulo, os diálogos ocorreram ao longo da Avenida Paulista, o centro financeiro do país, mas também em um espaço público que há muito havia sido esquecido – dentro assembléia legislativa da cidade. Ricardo Young, vereador da cidade de São Paulo, participou dessa conversa e seus resultados auxiliaram seu trabalho: “diálogos públicos são um instrumento essencial em que o legislador pode expressar suas opiniões e ouvir diferentes pontos de vista sobre a realidade,” ele me disse , “por definição, este é o espaço onde um legislador deveria estar.”

Será que esse processo realmente afetará o futuro do Brasil, uma vez que continue a evoluir? Essa é a pergunta óbvia, e não é possível responder a ela agora. Mas sem algum tipo de discussão pública em larga escala, ela não será respondida de forma democrática.

Václav Havel, escritor, ativista e ex-presidente da República Checa, uma vez observou que “eu realmente vivo em um sistema em que as palavras são capazes de abalar toda a estrutura do governo, onde as palavras podem ser mais poderosas do que dez divisões militares.”

Sem sinais de colapso do regime comunista e pouca esperança no horizonte, Havel e seus amigos se encontravam secretamente para sediar conversas e gerar novas histórias sobre o futuro. Eles se encontravam em cafés subterrâneos e publicavam jornais alternativos . Eles convidavam para o debate e criavam novas idéias e interpretações sobre a política e a economia . Até mesmo os membros do regime comunista achavam uma forma de se juntar a essas conversas . Essas pequenas ações não abalaram o sistema maior diretamente, mas ao longo do tempo uma compreensão coletiva diferente sobre a sociedade checa começou a surgir.

O Brasil de hoje é muito diferente da Tchecoslováquia de Václav Havel sob o regime comunista, mas isso não dilui a importância dos tipos de conversas a que ele estava se referindo. Muito pelo contrário, já que essas conversas deveriam ser muito mais poderosas nos espaços públicos de um Estado democrático. Com o tempo, elas podem até abrir uma oportunidade para transformar a própria democracia, desde as eleições representativas a cada quatro anos até um processo contínuo de diálogo público participativo.

Os protestos de rua não vão e nem devem desaparecer, mas talvez as manifestações do futuro incluam a caminhada de milhões, seguida por milhares de círculos de diálogos. Talvez a definição de novas leis seja precedida de conversas abertas que ocorram em um parque público perto de você, e anfitriadas por quem esteja interessado. Imagine o que poderia acontecer se os representantes políticos fossem se juntar a essas conversas para se encontrarem com seus eleitores face a face. A responsabilidade política não mais seria delegada a poucos. Em vez disso, o público poderia estar mais próximo e se apropriar do processo político.

Sociedades complexas exigem altos níveis de participação pública, e não apenas nas ruas, mas nos espaços onde as idéias e opiniões nascem e são moldadas. Estes espaços poderiam tornar-se laboratórios de engajamento público em um nível totalmente novo, abrindo as portas para uma revolução na democracia.

Arquitetos do Encontro

from lesliewong.us

Este texto foi publicado originalmente no blog do Hub Escola.


Que boa surpresa poder ver na última edição do Hub Escola a quantidade de oficinas e conversas sobre conversar: diálogos, conversas que importam, essência da facilitação, comunicação autêntica.

A importância de conversar como forma de agir no mundo ganha o espaço que merece – conversar é a ação que nos permite coordenar nossas ações conjuntas e são as conversas sobre o que importa hoje que fundamentam o mundo que queremos. Conversar é construir mundos em conjunto e, além de tudo, é conversando que a gente se aprende.

Conversar é uma arte que se desenvolve participando integralmente do encontro com o outro. É uma arte que demanda atenção e dedicação para que possamos nos enxergar como agentes dessas conversas. Mesmo em momentos em que estejamos aparentemente não agindo, ainda assim precisamos de atenção para escutar ativamente o outro. Uma boa conversa é um bom investimento da nossa energia e um desafio para nossa habilidade de estar presente.

De mãos dadas com a arte de participar integralmente caminha a arte de criar espaços e condições para que aconteçam as conversas que são chave para o nosso momento, seja ele pessoal ou de um coletivo. É importante que tenhamos espaços para que a comunicação sobre o que importa para nós neste momento possa acontecer.

Estive recentemente no Vale do Anhangabaú e, olhando para o espaço vazio com pouca gente espalhada lendo jornal, pensei no artigo enviado por uma amiga em que um arquiteto famoso por reurbanizar cidades européias afirma: “São Paulo precisa de espaços de encontro”. Além da arquitetura física, a cidade e qualquer outro espaço precisa de arquitetos do encontro – gente que escuta qual a conversa que deve acontecer e cria as condições para que ela se torne realidade.

Já existem vários espaços interessantes de encontro na cidade, o Hub Escola é um exemplo deles, as Manifestações Diálogo, outro. São estes encontros, em espaços públicos ou privados, que são convite à comunicação e ao diálogo. São convites para nos desenvolvermos como seres que melhor nos relacionamos e também para desenvolvermos as inquietações que nos movem neste momento.

Arquitetos ou artistas do encontro são as pessoas que ouvem suas inquietações individuais e as coletivas e criam os espaços necessários para que conversas significativas possam acontecer.

Se você já se aventura ou quer se aventurar em explorar a arte do encontro, uma oportunidade este ano é estar com outros artistas na Vila de Aprendizagem, compartilhando e ouvindo as práticas de quem convida pessoas para aprender junto. Informações sobre a Vila em: http://viladeaprendizagem.com.br

Quem Manda Nessa Conversa, Afinal?

by Rainbirder

Participei na semana passada da conferência internacional em educação democrática. Pela primeira vez em 20 anos os organizadores resolveram arriscar uma conferência sem painéis e palestrantes e gerar espaço para oficinas paralelas como em um Open Space.

A transição de um formato tradicional para este mais diferente foi controversa. Muita gente compartilhou sentir falta de painéis em que alguém tomava a frente para compartilhar experiências de sucesso ou insucesso, ou para apresentar uma ideia nova e estimulante. Outros olhavam para o programa atônitos – uma quantidade grande de opções os deixava ansiosos.

Quando perguntado do que achava da conferência, disse que este sistema de escolha e espaços abertos era o único tipo de conferência para a qual sentia que valia a pena ir, mas que entendia as frustrações atreladas ao modelo.

A ansiedade frente às opções é mesmo questão de ter estado e acostumar-se a espaços assim. Vale lembrar que estar em uma conferência, em um lugar específico, implica abrir mão de vários outros espaços acontecendo em outros lugares. Sempre vamos fazer escolhas.

Ter experimentado encontros assim no passado, como eram os Fóruns Sociais Mundiais que se espalhavam por toda Porto Alegre, nos faz ficar em paz com onde estamos e aproveitar um fluxo de aprendizado mais tranquilo e profundo.


Já a falta de gente tomando a frente das oficinas foi uma falha. Uma ideia bem intencionada dos organizadores, é verdade, mas uma falha. Em vez de se comprometerem por inteiro com um formato de Open Space, resolveram levantar de antemão, em um fórum online, quais eram os assuntos sobre os quais as pessoas gostariam de conversar e montaram uma grade de oficina com eles, cada uma com um facilitador aleatoriamente apontado.

Uma falha porque não havia nas oficinas ninguém que era realmente o anfitrião da conversa. O tópico, pré-pronto, não tinha uma pessoa por trás que trazia a clareza e curiosidade em uma pergunta, uma experiência, uma ideia.

A falta de uma pessoa comprometida com explorar o conteúdo presente transformou a conversa em um jogo de definições: o que será que realmente quiseram dizer os que pré-escolheram esse tema? Por que mesmo estamos aqui? Com o tempo passado para se definir com clareza do que se tratava o espaço, acabava-se a oficina e a sensação de superficialidade pairava no ar.

Escrevi em outro momento sobre o desconstruir do nosso impulso de ficar sentado em uma sala na qual não estamos tirando proveito da conversa. Isso gerou um convite que em Open Space é representado pela lei dos 2 pés.

Também comentei a importância de se ter um responsável pelo convite e pelo espaço – algo que não aconteceu nesta conferência.

Essa falha talvez seja um reflexo do confundir democracia com responsabilidade diluída, democracia com ser representado. O pré-forum teve seu conteúdo democraticamente escolhido e representado na conferência – não colou.

Faz todo sentido a pessoa poder escolher em que espaço quer estar, ter a oportunidade de ter a conversa que quer ter com um grupo menor e engajado no mesmo micro-tema que ela.

O Anfitrião é aquele que cria as condições que dão vida a um convite.

O que deixa de fazer sentido é não ter o indivíduo ou grupo de pessoas que se responsabiliza pelo convite e cria as condições que dão vida a ele: estou convidando para conversarmos sobre essa pergunta, para debatermos essa experiência ou, simplesmente, estou convidando para que assistam a uma palestra minha.

Não ter um responsável por cuidar do espaço e do convite descaracteriza um espaço intencional de aprendizado. Não é dizer que não se possa aprender em situações não intencionais, muito pelo contrário: talvez tenhamos algumas de nossas experiências mais profundas em espaços e momentos em que menos esperamos. Porém uma conferência é, afinal, um espaço intencional que já convida para uma conversa específica, temática.

Não restrito a espaços intencionais, mas parte dele, mora a importância de nos co-responsabilizarmos pelo aprendizado próprio e tornar-nos responsáveis nos diversos papéis que escolhemos estar, talvez como anfitrião ou como anfitriado, talvez como um dos que convida ou como um dos convidados.

Aprender não admite representatividade – só você pode representar seu caminho de aprendizado e este caminho está intimamente ligado por tornar-se responsável por ele, independente do papel que esteja.

Convidar também requer ser responsável. Só convida quem está imbuído do espírito do tal convite, alguém que, mesmo que convite por um coletivo, não o representa, apenas carrega uma parte fundamental dele.

O conteúdo da conversa está intimamente ligado à capacidade de quem anfitria em trazer o espírito do que se quer conversar. De aí em diante muito do que acontece é belíssimamente incontrolável.

A Arte do Convite

by vgm8383

Existe uma aura em volta de um convite bem feito. Imagine um convite, escrito ou falado, com uma mensagem que te chama a atenção, algo que de alguma forma diz que ele foi feito para você e chegou no momento certo.

Um convite tem um aspecto mágico, ele coloca uma nova possibilidade na mão daquele que o recebe. Existe algo novo, que faz sentido para mim, e existirá uma oportunidade futura de que eu faça parte.

Quando aceitamos ou não um convite, abrimos e fechamos algumas possibilidades, tomamos uma decisão em uma ou outra direção. Um convite é como aquelas placas na encruzilhada das estradas, indicam possíveis direções na nossa jornada.


A beleza do convite está relacionada com a liberdade que ele gera. Um convite não é um comando, um direcionamento forçado. Aquele que convida genuinamente está pronto a receber aceites e recusas.

Se um convite não obriga a ação de aceitá-lo, certamente obriga o convidado a tomar uma posição. Convidar não é uma ação inocente, é um ato direcionador e modificador de mundo.

Quem convida abre um espaço para possibilidades, mas também direciona de duas maneiras:

    1. Quem convida delimita o que quer coordenar com os outros: qual o evento, com qual propósito, em qual lugar e em que momento, etc. Aceitar o convite normalmente implica aceitar as delimitações.
    2. Quem convida obriga o convidado a decidir-se. Um convite não é inocente – pede uma ação do convidado, mesmo que esta ação seja uma recusa por falta de resposta.

A arte de convidar é a arte de aprender a abrir elegantes possibilidades. Convidar é a primeira materialização do fazer bem para aquele que recebe bem. A Arte está relacionada com encontrar o ponto ótimo entre a possibilidade direcionada e a liberdade de escolha.

Como mandam as artes, a arte de convidar se aprende convidando. Estou procurando por convites bem feitos – escritos, vídeos, poemas, etc – para conhecer mais sobre a materialização desta arte. Tem algum que vem à mente e que você pode compartilhar comigo?

Carregadores de Mundos

from wikipedia

Estava recentemente lendo uma exploração sobre o re-aprender a importância de como nos encontramos (em inglês).

Esse sentimento de re-aprender como nos encontramos volta e meia bate a minha porta. Sinto como se fosse um toque de lembrança sobre minha própria jornada e como ela vai mudando e evoluindo.

Traduzimos a forma como nos encontramos em muitas coisas: como preparamos o espaço, como convidamos e como usamos e transformamos a linguagem – mas no fim tudo faz parte do natural encontrar-nos em diálogo, a mágica de múltiplos mundos investigando uns aos outros com curiosidade. E a minha curiosidade se renova, curiosidade pela arte do encontro e como podemos auxiliar para que estes espaços aconteçam.

Nas minhas explorações sobre sistemas sociais, coisas que tenho escrito em inglês, a forma como nos encontramos talvez seja a única na qual as atividades humanas possam imaginar influenciar mudança social. A mudança-chave é a conversa, mas não aquelas que temos todos os dias nem as que podemos planejar para influenciar outros e seus mundos.

A conversa para mudança social é aquela em que mundos se encontram e se re-descobrem. Para estas, nós não ensinamos porque as pessoas já sabem, não institucionalizamos porque são as pessoas as carregadoras de mundos, não as organizações. Nós convidamos para o que temos escutado e colhemos o que ouvimos.

4 Práticas para Anfitriar Aprendizagem

by ABELOroz

Nunca ninguém se perdeu
Tudo é verdade e caminho.
Fernando Pessoa

Quatro Práticas

1. Acredite nas pessoas — Quem convida para aprender como anfitrião não precisa ensinar nada, simplesmente confia no convite e nas pessoas. Pode ser difícil de acreditar, mas por mais que as vezes nem elas mesmas tenham consciência, elas podem. E só elas podem. Se elas não podem é porque não está na hora e não tem nada a ver com você.

2. Esteja Disponível — Desocupe-se. Todas as contingências do mundo não são sua responsabilidade e o que precisa estar preparado já está. Preparou mal? Entregue-se, mas não arrume. Confesse o erro mas não explique a piada. Continue disponível porque este é o seu papel – a responsabilidade do que acontece no presente é sempre compartilhada com todos os presentes.

3. Seja Invisível — Gabe-se de nem aparecer no trabalho. Um bom anfitrião fez a maioria do trabalho antes de tudo começar. Ele pode dar as boas-vindas, mas não é mestre de cerimônias e nem conferencista. Ele fica invisível a quem participa o máximo que pode e é fundamental como são as coisas que não se nota.

4. Preste Atenção — Não analise o que acontece, não leia ninguém nem nada. O único trabalho é prestar atenção. Em alguns casos, por prestar bem atenção, alguns padrões ou hipóteses podem aparecer – pergunte-se: é imperativo que eu a aponte para o rei nu? Se não for, cale-se. Se for, limite-se a uma pergunta bem formulada.


Algumas Dicas para o Caminho

Dicas que está no caminho certo:

  • Sua autoridade é marginal, as pessoas tomam liberdades sem nem olhar para a sua cara.
  • Nem lembram que você existe no final do dia.
  • Em algum momento pensaram em te mandar para casa.
  • Reclamam que você faz muita pergunta.

Dicas que que está no caminho errado:

  • Está muito cansado ou sem voz no final do dia.
  • Sabe quem é o porta-voz e o bode expiatório.
  • Você justifica ou lamenta acontecimentos do coletivo.
  • Recebe elogios por colocar ordem na bagunça.

O que ajuda:

  • Ficar quieto – contar ovelhas quando der vontade de falar.
  • Respirar fundo – sempre uma vez além do que você acha necessário.

Educação, Escola e Aprendizagem: Educere em Demasia

from wikipedia.org

Depois de ter saído de trabalhar em uma escola, acaba sendo muito fácil começar a escrever sobre escola/educação e deixar a aprendizagem de lado. Apesar de todas as linhas que as conectam, vale sempre lembrar que escola é diferente de educação e que educação é diferente de aprendizagem.

Educação, Escola e Aprendizagem

Escola diferente de educação e aprendizagem é mais fácil de explicar. Escola não é, e não deveria ser entendida como, o lugar que define o processo educacional e muito menos onde começa o aprendizado.

Já educação, de educare e educere, é mais complexo e gera diferentes interpretações. Por aqui, considero o ‘conduzir educacional’ diferente de aprendizado porque este último, diferente do primeiro, é inevitável e inerente ao ser humano.

Criar espaços e oportunidades de aprendizado é diferente de educar e de escola. Escolas e sistemas educacionais tem suas práticas e teorias de aprendizagem, mas aprendizagem também existe na prática sem necessidade de teorizar muito.

A arte de criar espaços de aprendizagem é a arte de proporcionar oportunidades de um encontro fundamental entre duas ou mais pessoas — a pré-disposição de estar com o outro em um relacionamento entre dois Sujeitos, ao invés da relação Sujeito—Objeto.

Sujeitos de Gerações Diferentes se Encontram na Escola

Uma constatação do tempo trabalhando com crianças — e daí talvez o convite frequente para falar em escolas — é que são poucos os adultos que se relacionam com crianças sem transformá-las em Objeto e ainda por cima convidá-las a uma cultura em que a criança também se relacionar com o adulto e com outra criança da mesma forma Sujeito—Objeto.

Na escola, encontro inter-geração de Sujeitos é raro ou inexistente.

E a relação aprender/ensinar, que tem o seu lugar, não pode ser monopolizadora da relação entre adultos e crianças. Nessa relação sempre existe um distanciamento entre Sujeitos, , por mais que se esforce o adulto em diminuir essa distância. O pensar pedagógico, na mesma medida e seja ele qual for, distancia o adulto da criança. Simplesmente estar com a criança é muito mais desafiante do que entender Vygotsky.

Educere desde Cedo

Em exemplo prático: li a apresentação que recebi de escolas/berçários paulistanos e a pedagogia e o educere são muito mais comuns do que a atenção em criar espaços para estar com a criança.

Lembrando que estamos falando de bebês menores de um ano, compilo trechos de algumas.

“O desenvolvimento do cérebro ocorre através da educação. Sob esse enfoque a escola norteia o processo de aprendizagem para aproveitar o que os neuro-cientistas chamam de…”

“A Proposta Pedagógica da Escola é fundamentada na abordagem sócio-construtivista, que considera a criança como ser social, dotado de potencialidades e capacidades a serem desenvolvidas no contato com seu grupo, atuando sobre o meio e modificando-o.”

E nesse meio há, ainda bem, outros espaços:

“Nosso modo de entender o bebê, vendo-o como uma pessoa, é o maior diferencial de nosso trabalho. Tratar bebês como pessoas pode parecer óbvio […], mas não é: grande parte dos profissionais ainda encara os bebês como coisas ou bichinhos […] — basta tratá-los com higiene e carinho.”