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Resultados em Colaboração

Apenas terminado um outro dia sendo anfitrião de um grupo de pessoas fazendo seu trabalho em colaboração.

quando se julga que tudo foi bem

Nestes trabalhos, quando as coisas vão bem, pode ser que o ego convide para que sonhemos que esse sucesso tem a ver com quão maravilhoso é nosso trabalho e quão bem estávamos hoje.

A experiência nos mostrou que sucesso com grupos não é resultado nosso: as pessoas são mesmo boas trabalhando juntas.

Ao mesmo tempo, em muitos casos, nosso trabalho é essencial como um instrumento para sustentar a experiência de colaboração.

Essencial somente para nos atentarmos a que os padrões de controle e hierarquia excessivos voltem a emergir. Normalmente eles aparecem em conversas supostamente colaborativas, mesmo sem termos consciência, porque são padrões aprendidos e revisitados por tantas vezes que por fim ressurgem como um hábito.

quando se julga que não foi assim tão bem

Quando as coisas não vão assim tão bem podemos escolher o caminho de carregar tudo nas costas e culpar nossa incompetência ou inabilidade – muito do mesmo comportamento “o resultado tem a ver comigo”.

Ou ainda podemos culpar uma fonte externa como responsáveis pela insuficiência. Assim, por vítima que somos, não temos culpa de nada.

Independente da escolha, ambas carregam em si o pressuposto de um processo simplificado em relações de causa e efeito e no qual podemos encontrar alguma coisa ou alguém para culpar e, claro, consertar.

em todo caso

No fim, sabemos que o resultado não tem a ver conosco e que ao mesmo tempo temos um papel essencial nele.

Somos insignificantes em relação ao que vai se desenrolar e também essenciais por criarmos contexto e container para o processo.

Contexto, Container e Conteúdo

Neste trabalho agimos procurando o entendimento e a escolha das condições que sao necessárias e também prestando atenção enquanto as coisas se desenrolam.

Podemos olhara para ele através de 3 Cs: Container, Contexto e Conteúdo.

o encontro começa antes do encontro

Antes mesmo de encontrar com o grupo face a face, estamos em plena atividade criando contexto e container para a conversa, normalmente com um bom tanto de trabalho prévio, algumas entrevistas para adquirir a linguagem, uma boa ponderação de espaço e estrutura, etc.

Aqui, ainda que a energia esteja diluída, é onde 80% da quantidade de trabalho acontece. Contexto e container farão uma importante parte do trabalho mais para frente.

e o foco do evento conversacional

Quando finalmente nos encontramos é hora de aplicarmos a arte de estar presente e escutar profundamente tanto o flutuar do contexto quanto o desenrolar do conteúdo, seja este expresso em emoções, ações ou conceitos. Esse momento é intenso energeticamente, mas contém menos trabalho quantitativo.

Uma pessoa de fora não vê muito sendo feito, já que muito do nosso trabalho é ficar ali parado, prestando atenção.

E todo o conteúdo que colhemos juntamente com o grupo está conectado a todos os presentes e também ao contexto e o container criados. É um resultado em colaboração.

Leia Mais

  • Don’t Just Do Something, Stand There!: Ten Principles for Leading Meetings That Matter – Marvin Weisbord e Sandra Janoff – e-book na Amazon
  • The World Café: Shaping Our Futures Through Conversations That Matter – Juanita Brown, David Isaacs e a Comunidade do World Cafe – e-book na Amazon

O Poder do Collaboratory

by lugar a dudas cali @ flickr

Quando olhamos para o que está acontecendo no mundo, podemos dizer que a complexidade está escalando a montanha. Não diria que as coisas estão mais complexas, mas que talvez tenhamos, como sociedade, maior capacidade de perceber as complexidades à medida que nossa vida fica impactada de forma mais visível por problemas que não vão desaparecer com medidas ‘quick fix’.

Para explorar estes temas e encontrar novas formas de interagir entre nós e com o mundo, nós como sociedade precisamos de um bom tanto de percepções juntas. O ato de criar espaços e oportunidades para pessoas aprenderem e agirem juntas está aumentando, e isso é o que está presente no livro que estava lendo recentemente: The Collaboratory.

 

The Collaboratory book cover

A capa do livro

The Collaboratory é uma ideia nascida de uma visão para o futuro da educação de lideranças empresariais, mas uma que ideia que reflete os momentos de mudança da sociedade como um todo. A capacidade de co-criar e colaborar está sendo vivenciada como a forma de movermos positivamente adiante em provocar mudança.

O livro pega seu nome desta iniciativa e encontra muitas outras que dividem estes princípios.

Ele vem para consolidar a prática de colaboração entre atores para mudança em um momento onde as metodologias e processos para engajamento de atores está mais estruturada e disseminada e quando muitos praticantes estão refletindo e agindo para criar espaços que endereçem temas complexos tanto em organizações quanto na sociedade.

No livro encontrei histórias de como iniciativas tem evoluido ao redor do mundo, junto com diferentes dimensões de colaboração e exemplos de espaços e processos que trazem mudança social. Encontrei colegas e professores conhecidos entre os autores, mas também encontrei novos colegas e iniciativas que não conhecia. E tenho certeza de que se trata de uma pequena amostra, existem certamente iniciativas suficientes para pelo menos meia dúzia de outros livros.

 

Dividido em quatro partes, o livro engloba uma gama de autores vindo de lugares como a Society of Organisational Learning [veja sobre a SoL no Brasil], uma NGO com sede na Suíça e o movimento 50+20, iniciativa que inspirou o nome do livro.

Autores mostram suas iniciativas e insights em como identificar, convidar, desenhar e ser anfitrião de uma jornada de colaboração para tratar de problemas complexos. O livro, mais do que uma coleção de artigos, está bem estruturado e parece ser uma exploração co-criada de pessoas trabalhando diretamente para reestruturar processos de mudança na direção de jornadas de colaboração.

Chamando de DesignShop, SocialLab, Transformative Scenario Planning e trabalhando com processos de base como Appreciative Inquiry, o Art of Hosting e Theory U, muitos dos autores dividem premissas como:

  • a ideia de uma jornada transformadora que traz o novo através da cooperação e atenção ao processo ao invés da competição e criação de produtos;
  • a importância de facilitar espaços colaborativos que se parecem mais com uma jornada engajante do que um evento de tomada de decisão;
  • ser algo sobre métodos e padrões de criar espaços e convidar pessoas para mudança colaborativa com a mão na massa;
  • existem requisitos e condições para que os collaboratories possam funcionar, baseados em experiência prática, mas não existe uma lista a ser ticada;
  • encontros trabalham com soluções emergentes vindo de pessoas engajadas no assunto ao invés de esperar a solução de problemas vindo de especialistas de fora;
  • transformação vem de prototipar soluções e não somente de sessões de análise e brainstorming.

As últimas partes do livro mostram exemplos de collaboratories ao redor do mundo e aplicações em diversos setores da sociedade, seguido de uma seção que explora como desenhar um collaboratory e o que muda no papel do facilitador para estar em um espaço como este.

 

O livro está disponível em inglês pela Greenleaf Publishing. Mais informações, também em inglês, no website do livro.

 

Um quadro de suporte para desenhar colaborativamente sua conversa estratégica.

Manifestando uma Revolução de Segunda Ordem

Luiza Padoa and Juliherme Piffer

O protesto por si só não pode garantir uma visão de longo prazo para um país, de modo que o caminhar em linha reta das manifestações tem que ser re-configuradas em círculos de diálogo e novos padrões de democracia participativa. Isto é o que está acontecendo no Brasil.

Este texto foi produzido originalmente em inglês para OpenDemocracy – Transformation e sua versão original se encontra neste link. Obrigado Darlene Coelho pela tradução. Arte acima por Luiza Padoa e Juliherme Piffer


 

Como a energia de manifestações de rua pode ser utilizada para a transformação de longo prazo da sociedade? Como uma revolução pode gerar propostas concretas de mudança sem se reduzir a um discurso político?

Estas são questões que emergem de cada protesto, assim que os cartazes e cacetetes são baixados.. Respondê-las requer o que eu chamo de uma “revolução de segunda ordem.”

A partir de junho de 2013, muitas cidades brasileiras explodiram em uma onda de protestos de rua. Eles iniciaram por um aumento de sete por cento nas tarifas de ônibus, mas se transformaram em uma declaração mais geral de insatisfação pública com a situação do país: “Basta! “, o público parecia estar dizendo.

Os políticos se esforçaram para compreender e chegar a definições sobre o que estava acontecendo, e tentaram em vão identificar representantes dos manifestantes com quem pudessem falar. Após de milhões de pessoas permanecerem nas ruas por semanas, o aumento da tarifa de ônibus foi revogado, mas muitos brasileiros continuaram suas ações à medida que outros temas eram desdobrados e mais exigências eram feitas.

Muitos comentaristas e ativistas escreveram sobre estas experiências como um ponto de inflexão em potencial no Brasil, e tentaram explicá-las em termos do contexto econômico do país, dos gastos extravagantes para a próxima Copa do Mundo, e do poder das redes sociais para mobilizar manifestações de grandes dimensões.

As fotos dos protestos mostram milhões de pessoas nas ruas, demarcando um momento potencialmente histórico para o país. O que é interessante, para mim, é que estas imagens mostram um padrão comum de protestos de rua no qual a maioria das pessoas está olhando na mesma direção – marchando em linha reta, quase como uma divisão militar em ação. Mas as sociedades como um todo não funcionam dessa maneira (principalmente as democráticas), porque as pessoas não concordam com os detalhes de como a ordem estabelecida deve mudar após os protestos.

O protesto por si só não pode garantir uma visão de longo prazo para um país, de modo que o caminhar em linha reta das manifestações tem que ser re-configuradas em círculos de diálogo e novos padrões de democracia participativa. Isto é o que está acontecendo no Brasil.

Os brasileiros vão continuar a mostrar o seu descontentamento sobre um país que é conhecido por sua corrupção, e pelas enormes lacunas que existem entre ricos e pobres. Mas ao lado dos protestos públicos visíveis algo mais sutil está acontecendo: conversas em espaços públicos sobre a futura direção da sociedade.

Tais conversas representam uma revolução de segunda ordem. Elas têm o potencial para transformar o modo pelo qual a mudança social é construída, permitindo que novas histórias emerjam. E elas convidam os cidadãos a se apropriarem dos espaços públicos, a fim de explorar versões divergentes sobre a trajetória de seu país e formar novas compreensões coletivas.

By @David_EHG

Evento 1000 mesas em Israel

“Círculos de diálogo” como estes têm ocorrido em muitos outros lugares. Em Israel, por exemplo, mais de trinta cidades se reuniram ao redor de 1.000 mesas em 2011 para explorar as questões políticas e sociais que eles enfrentam. O principal espaço de diálogo (uma praça em Tel Aviv) foi transformado em um enorme salão com espaço para 5.000 pessoas. Da mesma forma, durante o tumulto na Grécia, que teve lugar entre 2010 e 2012, o público ocupou a Praça Syntagma, no centro de Atenas. Embora a ocupação não tenha produzido muito diretamente pelo caminho do diálogo, ela abriu caminho para surgirem outros espaços e conversas.

No caso do Brasil, conversas públicas deste tipo foram organizados em quatro grandes cidades, assim como em muitas localidades menores em todo o país. Em Brasília – uma dos primeiras a acolher esses diálogos – a iniciativa surgiu a partir de um grupo de pessoas que queriam explorar o que seria necessário para criar uma ponte entre a situação atual e o futuro que desejavam.

Percebi que seria uma conversa superficial se não tecessemos nossas idéias juntos, disse Sérgio

Em uma recente entrevista comigo, Sérgio Monforte, que estava envolvido em um desses círculos, explicou como o processo começou: “Nós estávamos sentados em plenário em um espaço público próximo ao Congresso Nacional”, disse ele, “e percebi que seria uma conversa superficial se não tecessemos nossas idéias juntos. “Monforte e outros propuseram a criação de pequenos grupos para explorar questões sem temas pré-definidos, e para suscitar idéias de ação. “Nem todos concordaram”, continuou ele, “por isso no início fizemos um grupo paralelo com o plenário.” As idéias foram colhidas para descrever a transição entre “o Brasil de hoje e o Brasil que queremos no futuro”, incluindo “a morte de petróleo “e construção de “redes de comunidades sustentáveis”.

Essas discussões iniciais também produziram uma série de pequenas ações conjuntas, como um vídeo para explicar como as leis são criadas e alteradas no Brasil; um exercício para ajudar as pessoas a conversarem entendendo os pontos de vista de cada um, e propostas sobre como outros grupos poderiam ser apoiados para sediar conversas semelhantes. Como resultado destas propostas, foi criado um guia de metodologia com base na experiência de Tel Aviv. Ele descreve o processo de conversa em grupo chamado World Café, uma tecnologia social que permite conversas acontecerem em uma grande escala, sem suprimir a diversidade de vozes presentes. No final do processo, os resultados da conversa foram apresentados de forma visual.

Por definição, [espaços públicos] é onde um legislador deveria estar – disse Ricardo Young

Em São Paulo, os diálogos ocorreram ao longo da Avenida Paulista, o centro financeiro do país, mas também em um espaço público que há muito havia sido esquecido – dentro assembléia legislativa da cidade. Ricardo Young, vereador da cidade de São Paulo, participou dessa conversa e seus resultados auxiliaram seu trabalho: “diálogos públicos são um instrumento essencial em que o legislador pode expressar suas opiniões e ouvir diferentes pontos de vista sobre a realidade,” ele me disse , “por definição, este é o espaço onde um legislador deveria estar.”

Será que esse processo realmente afetará o futuro do Brasil, uma vez que continue a evoluir? Essa é a pergunta óbvia, e não é possível responder a ela agora. Mas sem algum tipo de discussão pública em larga escala, ela não será respondida de forma democrática.

Václav Havel, escritor, ativista e ex-presidente da República Checa, uma vez observou que “eu realmente vivo em um sistema em que as palavras são capazes de abalar toda a estrutura do governo, onde as palavras podem ser mais poderosas do que dez divisões militares.”

Sem sinais de colapso do regime comunista e pouca esperança no horizonte, Havel e seus amigos se encontravam secretamente para sediar conversas e gerar novas histórias sobre o futuro. Eles se encontravam em cafés subterrâneos e publicavam jornais alternativos . Eles convidavam para o debate e criavam novas idéias e interpretações sobre a política e a economia . Até mesmo os membros do regime comunista achavam uma forma de se juntar a essas conversas . Essas pequenas ações não abalaram o sistema maior diretamente, mas ao longo do tempo uma compreensão coletiva diferente sobre a sociedade checa começou a surgir.

O Brasil de hoje é muito diferente da Tchecoslováquia de Václav Havel sob o regime comunista, mas isso não dilui a importância dos tipos de conversas a que ele estava se referindo. Muito pelo contrário, já que essas conversas deveriam ser muito mais poderosas nos espaços públicos de um Estado democrático. Com o tempo, elas podem até abrir uma oportunidade para transformar a própria democracia, desde as eleições representativas a cada quatro anos até um processo contínuo de diálogo público participativo.

Os protestos de rua não vão e nem devem desaparecer, mas talvez as manifestações do futuro incluam a caminhada de milhões, seguida por milhares de círculos de diálogos. Talvez a definição de novas leis seja precedida de conversas abertas que ocorram em um parque público perto de você, e anfitriadas por quem esteja interessado. Imagine o que poderia acontecer se os representantes políticos fossem se juntar a essas conversas para se encontrarem com seus eleitores face a face. A responsabilidade política não mais seria delegada a poucos. Em vez disso, o público poderia estar mais próximo e se apropriar do processo político.

Sociedades complexas exigem altos níveis de participação pública, e não apenas nas ruas, mas nos espaços onde as idéias e opiniões nascem e são moldadas. Estes espaços poderiam tornar-se laboratórios de engajamento público em um nível totalmente novo, abrindo as portas para uma revolução na democracia.

Intervenção a Serviço de Quê?

by One From RM

Acabei de voltar de duas semanas intensas estudando-me e estudando grupos na conferência Tavistock que acontece há 66 anos na Universidade de Leicester.

A conferência tem como uma das suas premissas básicas que grupos trabalham em uma tarefa consciente mas sempre tem um processo inconsciente que ocorre paralelamente. Acessar esse processo inconsciente pode estar a serviço de facilitar o desenvolvimento da tarefa ou do próprio desenvolvimento do grupo e de seus membros.

O papel do facilitador é de prestar atenção e criar hipóteses sobre a narrativa insconsciente do grupo quando ele/a julgar que isso é uma intervenção que serve o grupo em direção a seu objetivo.

Tivemos diversas sessões de trabalho e pude exercitar a formulação destas hipóteses e testá-las com os grupos com os quais trabalhei. Esse exercício pareceu ser uma mistura de atenção aos padrões de fala das pessoas juntamente com as formas de expressão, emoções e o não-verbal.

Foi interessante ver como a narrativa do grupo é influenciada quando alguns padrões são expostos como possibilidade.

Em uma das muitas conversas informais durante a hora do jantar, aprendi sobre as intervenções que não são adequadas.

O contexto era uma conversa sobre racismo onde uma carga de emoções (raivas, frustração, culpa, etc) foi bloqueada por um comentário que racionalmente fazia bastante sentido.

Lembrei dos momentos em que eu fiz o mesmo, expus um comportamento que fechou o espaço para que essas emoções pudessem ser expressadas. Me mostrei sagaz e atrapalhei o processo do grupo.

Ter espaço para expressar raiva pode ser fundamental para a saúde de um grupo. Aprendi que intervenção que racionaliza emoções que precisam ser expressadas, mesmo as verbalmente violentas, estão apenas empurrando as questões para debaixo do tapete.

A questão é: varrer para debaixo do tapete serve melhor o grupo naquele momento? Por vezes sim, mas algumas vezes apenas adia o confronto inevitável com assuntos que ficam vivos narrativa inconsciente.

Essa narrativa inconsciente parece ser a causa de grupos que parecem sempre em conflito sem motivo aparente ou simplesmente apáticos. Trata-se de uma história oculta que sequestra e paralisa o grupo.

Como saber se a intervenção faz sentido? Lembrei da sempre relevante pergunta: ela está a serviço de quê?

Por Quê #Occupy? – Além da Democracia Política e do Anti-Capitalismo

from wikipedia

#Occupy Poster

Estou bem isolado dos centros urbanos. Tudo o que eu tenho ouvido sobre #Occupy tem sido de amigos e da mídia. Tenho perguntado sobre o local, as conversas e o sentimento de estar lá, tudo para poder entender um pouco mais.

Apenas com essas impressões, imaginei um #Occupy que talvez não seja o que é, mas um que com certeza pode ser. Imaginei as pessoas ocupando espaços públicos para gerar conversas e emitir opiniões sobre temas que são do interesse público, mas que muitas vezes se escondem em salas de reunião privadas.

Imaginei uma forma participativa e crítica de entendermos como funciona nossa sociedade. O que talvez seja para muitos um espaço de protesto, vejo também como um espaço de entendimento. Entendimento porque as conversas não necessariamente tem que trazer uma alternativa pronta ou criá-la em alguns meses, mas são conversas que exploram o novo e não só criticam o velho.

Mesmo tendo causa aparentemente difusa, #Occupy é bem diferente de rebeldes sem causa – os sintomas geradores do movimento estão claros (assim como está não pode ficar!) e a causa e as alternativas estão sendo discutidas (o que podemos fazer de diferente?).

O grande poder está nas pessoas terem um espaço para se perguntar se essa democracia é realidade ou ilusão.

Pensei comigo – nunca antes na história deste planeta (ops!) tivemos espaços públicos sincronizados para conversar sobre o funcionamento da nossa sociedade e seu modus operandi. Nunca tivemos espaços onde os participantes de uma democracia política sentem que pode ser que haja algo mais a participar, algo mais a entender e algo mais a intervir diretamente.

E estes espaços não são uma afronta direta à democracia, mas com certeza são uma afronta à “ilusão democrática”, a idéia de que participação se restringe à esfera política, traduzida na linguagem atual na forma de “voto consciente” ou fazer parte de um partido ou causa política.

Acredito que o grande poder de #Occupy vai além da crítica ao capitalismo e das plataformas de “outros mundos possíveis” do Fórum Social Mundial. O grande poder está nas pessoas terem um espaço para se perguntar se essa democracia é realidade ou ilusão. Pessoas que estão lá ou acompanhando com interesse têm seus motivos mais diversos para estarem descontentes com o ir e vir da democracia política atual.

E o que acontece se nos desiludimos?

Impossível prever o que pode acontecer quando finalmente estivermos desiludidos com o que talvez o futuro chame de modelo restrito de participação. Para ir além, no entanto, não basta a desilusão de um grupo ou uma bandeira política, é essencial nos desiludirmos em conjunto.

#Occupy parece ser a preparação do coletivo para criar uma nova forma de participação, uma forma que tenha a nossa cara e ao mesmo tempo a de ninguém. Talvez seja a primeira forma de outras diversas que vão redefinir como nos organizamos em sociedade.

O que eu Aprendi com o Novo Padre

from deviantart.net

Fui Apresentado ao Novo Padre

Me considero sortudo de poder ter trabalhado em comunidades que carregam em si um espírito de estar a serviço – elas são comunidades de cunho espiritual e as vezes religioso. Admiro o fato de que a existência dessas comunidades está embasada no estar a serviço de.

Algumas se tornaram burocráticas e dependentes de decisões hierárquicas, excesso de estruturas controladoras, etc, não muito diferente de outros tipos de organizações.

Semana passada me enviaram uma publicação informal feita por um padre católico da Austrália, Padre Brian Bainbridge, que faleceu recentemente. Ele era um dos experientes praticantes e divulgadores do Open Space [Espaço Aberto]¹ e ensinou e inspirou muita gente em seu país e no mundo.

Não tive a oportunidade de conhece-lo e também acompanho com dificuldade minha inscrição na lista online do Open Space, mas fiquei realmente interessado no que ele escreveu porque sua experiência misturava estar a serviço e aprendizagem coletiva. Isso foi o que eu aprendi com o novo padre na paróquia.

Estar a Serviço e Aprendizagem Coletiva

O início do documento escrito por Padre Brian já demonstra essa conexão:

A transformação que eu via tão necessária na vida da paróquia era o movimento do ‘controle’ para o ‘servir’.

Isso é realmente verdade para algumas organizações espirituais e religiosas as quais tive contato. No entanto tenho que admitir que não acho que controle seja o oposto de servir – imagino até que em algum momento da história controle tenha sido grande parte do estar a serviço. Mesmo se isso for verdade para uma época, não é verdade para hoje: vivemos em uma cultura onde processos são controlados em demasia e matam a criatividade, a inovação e não convidam as pessoas a participar de decisões relevantes a elas.

Estamos em uma era de complexidade na qual estar a serviço significa apoiar-se mais em aprendizagem e ações coletivas. Se trata cada vez mais de estar a serviço através de convidar as pessoas a servir.

Verdadeiros Agentes de Mudança fazem coisas ‘Chatas’ sem se Chatearem

Lendo o documento, Padre Brian fala sobre um grande número de mudanças estruturais e de processos que aconteceram com o tempo. Mudanças reais significam deixar algumas coisas morrerem, dar atenção aos detalhes, ser cuidadoso com a comunidade e as vezes escolher pelo devagar e chato paciente no lugar do rápido e divertido.

Para mim, que gosto de ver grandes mudanças acontecendo rápido, juro que tive que respirar fundo para ler a descrição completa da mudança do sistema de som da Igreja, algo que certamente foi uma grande contribuição para a comunidade, contribuição que eu não posso apreciar sentado lendo aqui no meu banquinho.

Mudanças que envolvem pessoas são analógicas e tem inércia – devem ter. Um verdadeiro agente de mudança pode ao mesmo tempo se importar profundamente pela mudança e desapegar dela acreditando que com espaço as coisas vão se cristalizando. Ambas as coisas estão presentes na história do Padre: o que requer mudanças radicais – ex. quando foi decidido que os conselheiros financeiros seriam escolhidos somente entre os jovens – ou o que requer esperar até que o coletivo esteja pronto para agir – ex. o caso do gerenciamento da escola pertencente à Igreja e seu diretor.

Mas “deixar acontecer” não quer dizer que não há estrutura e processo e que seja somente uma licença para tudo.

Corrida para Lugar Nenhum

Os entusiastas em educação normalmente vibram com os vídeos que mostram algumas fichas caídas sobre a nossa educação atual — os vídeos no youtube do Ken Robinson sobre criatividade e paradigma da educação são vistos como quebras do modelo de pensar atual. Acabei de ver um trailer de fime muito interessante — “Race to Nowhere” — Corrida para Lugar Nenhum — vejam:

httpv://www.youtube.com/watch?v=IPj9HNq-VmM

O começo mostra como é hoje — um sistema que conhecemos e apesar de não gostar, ainda não sabemos como substituí-lo de maneira completa e sistemática. Ter consciência de que é uma corrida a lugar nenhum é realmente um passo, mas o que me impressiona é o final — a mesma crítica que eu fiz ao vídeo do Ken Robinson. Lá, percebendo que a definição de sucesso que as crianças tem que engolir hoje não faz sentido, a proposta implícita é a de um bando de experts em crianças e educação definirem o sucesso que elas terão que engolir daqui para frente.

Claro que o filme será legal — e com certeza vai valer a pena assistir. Só acho que ele tem grande chance de ser ótimo em mostrar o nonsense da educação atual e no entanto ser bem fraco em mostrar um caminho além do trocar seis por meia dúzia, de vender um tipo de pressão por outra.

Essa segunda parte vem de umas poucas frases copiadas abaixo que me fizeram pensar que a turma ainda não entendeu que não é por aí:

“Nós precisamos redefinir o que é sucesso para as nossas crianças” — ah, deixem as crianças em paz para definirem o que é sucesso para elas, qualquer outra coisa é receita para decepcionar-se no futuro — aos pais mais preocupados eu digo o que acho: elas terão a capacidade de começar o rat race se elas quiserem, só talvez não sejam o/a virtuoso/a com dez mil horas de matemática como você gostaria que fossem.

“Os empregos exigem que você saiba pensar criticamente…” — isso cai na mesma idéia do vídeo de paradigmas do Ken que eu já comentei.

“Precisamos realmente pensar o que é necessário para produzir [formar] pessoas felizes, motivadas e criativas.” — Ué, mas as crianças já não são felizes e criativas sem essa tal produção?

Não duvido que o filme vai fazer muito sentido e será bem-vindo. Estou me esforçando para deixar para lá a idéia de que muita gente vai achar revolucionário. Paciência.

Se a Escola Fosse Mais Capitalista

Interessante que minhas atuais leituras sobre educação tem se conectado com alguns dos vídeos que pipocaram nas minhas redes sociais recentemente. Um deles é sobre as inovações gerenciais do grupo Semco, comandadas ideologicamente por Ricardo Semler.

Bem no final do vídeo abaixo, certamente um exemplo de gerência compartilhada de sucesso, é citado o impacto de tais inovações na criação da Escola Lumiar em São Paulo.

httpv://www.youtube.com/watch?v=gG3HPX0D2mU

O que eu achei interessante foi a possível interpretação de um paralelo no vídeo: “if the sales don’t happen, the business unit ceases to exist; if the student doesn’t learn anything, they really don’t have a capacity to go out into the world…” –> “se as vendas não acontecem, a unidade de negócio deixa de existir; se o estudante não aprende nada, ele não tem a capacidade de sair para o mundo…”

Essa interpretação é péssima – está claro que se uma unidade de negócio está nas mãos dos colaboradores e portanto a responsabilidade é (no mínimo) compartilhada com eles, existe uma motivação clara entre a atuação no negócio e a continuidade, trabalhabilidade e sustentação do colaborador e da empresa.

Isso nem de longe é verdade em uma escola. Por mais que existam motivações intrínsecas para aprender, do tipo curiosidades ou percepções de aplicações do que aprendeu a curto e médio prazo, isso não acontece com todos os alunos e nem a todo momento para um indivíduo.

Uma organização que se monta com o objetivo central de gerar aprendizagem é uma organização fadada ao fracasso porque simplesmente não é verdade que o aluno tenha que gerar aprendizagem para si para então sair para o mundo. Se esse aprendizado está fadado a acontecer é porque ele vive e se relaciona, o que pouco tem a ver com a instituição escolar apesar de se conectar com seus integrantes.

Não existe atualização de currículo ou super-professor que tenha o poder de gerar uma constante motivação para aprender. Aprender nos padrões escolares não implica nenhuma motivação de continuidade aparente para uma criança de 0 a 14 anos, idade dos estudantes da Lumiar.

Simplesmente a pressão de gerar esse resultado não existe até que alguém a crie através de cobranças artificiais, não relacionadas à vida da criança, como exames ou o vestibular. Só nestes momentos uma escola é como uma empresa, só aí o capitalismo funciona bem.

Gerar essa pressão não deve estar nos objetivos da Lumiar como está em uma aula de cursinho – colocar o aprender em uma escola como o balanço trimestral de uma empresa é, no mínimo, confundir o que move e define as duas instituições em uma sociedade.

Se a escola fosse mais capitalista, talvez ‘the caring capitalist‘ fizesse mais sentido. Para falar a verdade, se a escola fosse mais como uma empresa muitos dos problemas destas instituições estariam resolvidos. Os progressistas brigariam porque o romanticismo do aprender pela motivação do aprendente morreria, os conservacionistas entrariam em parafuso porque as pessoas iam aprender o que fizesse sentido para elas e não o que eles gostariam que elas aprendessem.


No documento linkado abaixo, Sasha Sidorkin argumenta que escolarização não só é uma atividade capitalista como pode ser considerada trabalho infantil.

“Para se sair bem na economia de hoje, o capitalista precisa convencer os trabalhadores a gastar longos anos na escola se preparando para o trabalho do futuro.”*

O Senhor das Moscas

Depois que vim para Summerhill, sendo aqui uma democracia composta na maioria por crianças,  lembrei de um filme que minhas colegas de estudo de grupos em Curitiba haviam comentado comigo há alguns anos – tratava-se de um filme com bases filosóficas e lembrando conceitos freudianos, explorando por exemplo totem e tabu.

Lembrava que no filme um avião cai em uma ilha deserta e somente um grupo de meninos sobrevive e precisa se organizar para sobreviver. O desenvolvimento para uma sociedade tribal vem acompanhado de questões sempre presentes nos grupos e na sociedade como um todo: a definição de um líder, o medo do desconhecido, o esquecimento coletivo dos valores e objetivos comuns…

Tinha esquecido do nome do filme até cruzar com ele por aqui, meio que sem querer: O Senhor das Moscas. Assisti o original de 1963, trailer abaixo. Vale a pena.

httpv://www.youtube.com/watch?v=ehuMZjyA6z8

Um momento de silêncio

Semana passada participei de um seminário no estilo Pecha Kucha, que curiosamente ficou famoso por popularizar-se em Tóquio como forma de apresentação de designers e arquitetos.

Só pelas imagens não dá para saber exatamente do que se trata (!?)… tá, não dá pra saber e pronto, mas elas são legais, então aí vai… 🙂

[HTML1]

A conversa foi sobre criar momentos de silêncio para nós mesmos, sejam eles individuais ou em nossa família, trabalho e relações. Read more