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Resultados em Colaboração

Apenas terminado um outro dia sendo anfitrião de um grupo de pessoas fazendo seu trabalho em colaboração.

quando se julga que tudo foi bem

Nestes trabalhos, quando as coisas vão bem, pode ser que o ego convide para que sonhemos que esse sucesso tem a ver com quão maravilhoso é nosso trabalho e quão bem estávamos hoje.

A experiência nos mostrou que sucesso com grupos não é resultado nosso: as pessoas são mesmo boas trabalhando juntas.

Ao mesmo tempo, em muitos casos, nosso trabalho é essencial como um instrumento para sustentar a experiência de colaboração.

Essencial somente para nos atentarmos a que os padrões de controle e hierarquia excessivos voltem a emergir. Normalmente eles aparecem em conversas supostamente colaborativas, mesmo sem termos consciência, porque são padrões aprendidos e revisitados por tantas vezes que por fim ressurgem como um hábito.

quando se julga que não foi assim tão bem

Quando as coisas não vão assim tão bem podemos escolher o caminho de carregar tudo nas costas e culpar nossa incompetência ou inabilidade – muito do mesmo comportamento “o resultado tem a ver comigo”.

Ou ainda podemos culpar uma fonte externa como responsáveis pela insuficiência. Assim, por vítima que somos, não temos culpa de nada.

Independente da escolha, ambas carregam em si o pressuposto de um processo simplificado em relações de causa e efeito e no qual podemos encontrar alguma coisa ou alguém para culpar e, claro, consertar.

em todo caso

No fim, sabemos que o resultado não tem a ver conosco e que ao mesmo tempo temos um papel essencial nele.

Somos insignificantes em relação ao que vai se desenrolar e também essenciais por criarmos contexto e container para o processo.

Contexto, Container e Conteúdo

Neste trabalho agimos procurando o entendimento e a escolha das condições que sao necessárias e também prestando atenção enquanto as coisas se desenrolam.

Podemos olhara para ele através de 3 Cs: Container, Contexto e Conteúdo.

o encontro começa antes do encontro

Antes mesmo de encontrar com o grupo face a face, estamos em plena atividade criando contexto e container para a conversa, normalmente com um bom tanto de trabalho prévio, algumas entrevistas para adquirir a linguagem, uma boa ponderação de espaço e estrutura, etc.

Aqui, ainda que a energia esteja diluída, é onde 80% da quantidade de trabalho acontece. Contexto e container farão uma importante parte do trabalho mais para frente.

e o foco do evento conversacional

Quando finalmente nos encontramos é hora de aplicarmos a arte de estar presente e escutar profundamente tanto o flutuar do contexto quanto o desenrolar do conteúdo, seja este expresso em emoções, ações ou conceitos. Esse momento é intenso energeticamente, mas contém menos trabalho quantitativo.

Uma pessoa de fora não vê muito sendo feito, já que muito do nosso trabalho é ficar ali parado, prestando atenção.

E todo o conteúdo que colhemos juntamente com o grupo está conectado a todos os presentes e também ao contexto e o container criados. É um resultado em colaboração.

Leia Mais

  • Don’t Just Do Something, Stand There!: Ten Principles for Leading Meetings That Matter – Marvin Weisbord e Sandra Janoff – e-book na Amazon
  • The World Café: Shaping Our Futures Through Conversations That Matter – Juanita Brown, David Isaacs e a Comunidade do World Cafe – e-book na Amazon

O Poder do Collaboratory

by lugar a dudas cali @ flickr

Quando olhamos para o que está acontecendo no mundo, podemos dizer que a complexidade está escalando a montanha. Não diria que as coisas estão mais complexas, mas que talvez tenhamos, como sociedade, maior capacidade de perceber as complexidades à medida que nossa vida fica impactada de forma mais visível por problemas que não vão desaparecer com medidas ‘quick fix’.

Para explorar estes temas e encontrar novas formas de interagir entre nós e com o mundo, nós como sociedade precisamos de um bom tanto de percepções juntas. O ato de criar espaços e oportunidades para pessoas aprenderem e agirem juntas está aumentando, e isso é o que está presente no livro que estava lendo recentemente: The Collaboratory.

 

The Collaboratory book cover

A capa do livro

The Collaboratory é uma ideia nascida de uma visão para o futuro da educação de lideranças empresariais, mas uma que ideia que reflete os momentos de mudança da sociedade como um todo. A capacidade de co-criar e colaborar está sendo vivenciada como a forma de movermos positivamente adiante em provocar mudança.

O livro pega seu nome desta iniciativa e encontra muitas outras que dividem estes princípios.

Ele vem para consolidar a prática de colaboração entre atores para mudança em um momento onde as metodologias e processos para engajamento de atores está mais estruturada e disseminada e quando muitos praticantes estão refletindo e agindo para criar espaços que endereçem temas complexos tanto em organizações quanto na sociedade.

No livro encontrei histórias de como iniciativas tem evoluido ao redor do mundo, junto com diferentes dimensões de colaboração e exemplos de espaços e processos que trazem mudança social. Encontrei colegas e professores conhecidos entre os autores, mas também encontrei novos colegas e iniciativas que não conhecia. E tenho certeza de que se trata de uma pequena amostra, existem certamente iniciativas suficientes para pelo menos meia dúzia de outros livros.

 

Dividido em quatro partes, o livro engloba uma gama de autores vindo de lugares como a Society of Organisational Learning [veja sobre a SoL no Brasil], uma NGO com sede na Suíça e o movimento 50+20, iniciativa que inspirou o nome do livro.

Autores mostram suas iniciativas e insights em como identificar, convidar, desenhar e ser anfitrião de uma jornada de colaboração para tratar de problemas complexos. O livro, mais do que uma coleção de artigos, está bem estruturado e parece ser uma exploração co-criada de pessoas trabalhando diretamente para reestruturar processos de mudança na direção de jornadas de colaboração.

Chamando de DesignShop, SocialLab, Transformative Scenario Planning e trabalhando com processos de base como Appreciative Inquiry, o Art of Hosting e Theory U, muitos dos autores dividem premissas como:

  • a ideia de uma jornada transformadora que traz o novo através da cooperação e atenção ao processo ao invés da competição e criação de produtos;
  • a importância de facilitar espaços colaborativos que se parecem mais com uma jornada engajante do que um evento de tomada de decisão;
  • ser algo sobre métodos e padrões de criar espaços e convidar pessoas para mudança colaborativa com a mão na massa;
  • existem requisitos e condições para que os collaboratories possam funcionar, baseados em experiência prática, mas não existe uma lista a ser ticada;
  • encontros trabalham com soluções emergentes vindo de pessoas engajadas no assunto ao invés de esperar a solução de problemas vindo de especialistas de fora;
  • transformação vem de prototipar soluções e não somente de sessões de análise e brainstorming.

As últimas partes do livro mostram exemplos de collaboratories ao redor do mundo e aplicações em diversos setores da sociedade, seguido de uma seção que explora como desenhar um collaboratory e o que muda no papel do facilitador para estar em um espaço como este.

 

O livro está disponível em inglês pela Greenleaf Publishing. Mais informações, também em inglês, no website do livro.

 

Um quadro de suporte para desenhar colaborativamente sua conversa estratégica.

Encontros Participativos com Clareza de Propósito

from ashtarcommandcrew.net

Tenho minhas inquietações, coisas que formigam o corpo para acontecerem. As maiores são prenúncio de alguma mudança que pode causar ansiedade, muitas vezes uma infundada fantasia de que o que está para mudar não vai caminhar para boa direção. Fantástico mesmo é que normalmente eu não tenho claro o que é “boa direção”. Fantasia completa.

Vejo a mesma fantasia trabalhando com os outros para criar e planejar espaços de encontro. Quem chama por vezes tem uma quantidade imensa de inquietações e pouca clareza de propósito e/ou quer saciar muitas vontades em um só espaço.

Gerenciar ansiedades é grande parte do trabalho. Fico imaginando casamentos – quem ajuda os noivos a organizá-los deve usar a energia assim:

energia_casamento

De Inquietações ao Propósito

A primeira parte do trabalho é sempre mais cuidadosa, e as vezes mais longa, do que as demais. Clarificar o propósito para nós mesmos e para a pessoa com quem estamos trabalhando é fundamental porque gera as condições de contorno da jornada que em seguida vamos criar.

Muitas vezes recebemos o chamado para ajudar a criar algo em que, na conversa, o propósito não está claro, é ambíguo ou, pior, são vários. A ansiedade aumenta também quando apontamos essa realidade – a sensação parece ser de que voltamos à estaca zero ao redefinir o porquê de tudo aquilo.

Ceder a essa ansiedade e assumir que está tudo ok é uma armadilha que eu me lembro já ter caído diversas vezes. Seja no começo da conversa ou no meio, agarrar no tronco de um bom propósito é fundamental.

Condições para Criação Coletiva

Para darmos espaço para que se criem caminhos coletivamente, é essencial darmos as condições de que direção estamos falando. A definição e clareza de propósito nos permite desviar a rota de acordo com os acontecimentos e ainda assim caminhar na direção que queremos.

A clareza inicial previne ter que dar direção durante, ação que é resultado de propósito mal formulado e gera frustração geral: “como assim? convidaram para participar, mas por esse caminho não pode?”

Deixar explícito a direção gera as condições para que os próprios participantes definam os caminhos que fazem ou não sentido.

Uma das riquezas de encontros abertos é justamente essa capacidade de adaptar ao que vai sendo criado, trilhando caminhos que ainda não foram mapeados. O papel do anfitrião é dançar com as mudanças de caminho e trazer consciência de mudanças que afetam a direção que se imaginou no começo de tudo.

Propósito na Voz do Participante

Depois de criada a clareza entre quem anfitria é chegada a hora de receber os participantes da jornada. Aqui também é essencial que se revisite o entendimento de propósito.

Em situações complexas em que múltiplos atores estão envolvidos e carregando suas inquietações particulares, é natural que, por mais que se clarifique o propósito no ato de convidar, ainda assim cada um fantasie o seu próprio.

Explicar o porquê de estarmos juntos logo no começo da jornada ajuda, mas o melhor mesmo é abrir um espaço inicial para que os próprios participantes possam explorar consigo mesmos o porquê de estar lá. Ao articular o propósito na voz do coletivo, permite-se um alinhamento e uma checagem de destino antes da partida.

Checklist Clareza de Propósito

  • Transforme inquietações em um propósito claro e único.
  • Cuide para que exista tempo suficiente para atender ao propósito definido.
  • Na hora, preste atenção.

Manifestando uma Revolução de Segunda Ordem

Luiza Padoa and Juliherme Piffer

O protesto por si só não pode garantir uma visão de longo prazo para um país, de modo que o caminhar em linha reta das manifestações tem que ser re-configuradas em círculos de diálogo e novos padrões de democracia participativa. Isto é o que está acontecendo no Brasil.

Este texto foi produzido originalmente em inglês para OpenDemocracy – Transformation e sua versão original se encontra neste link. Obrigado Darlene Coelho pela tradução. Arte acima por Luiza Padoa e Juliherme Piffer


 

Como a energia de manifestações de rua pode ser utilizada para a transformação de longo prazo da sociedade? Como uma revolução pode gerar propostas concretas de mudança sem se reduzir a um discurso político?

Estas são questões que emergem de cada protesto, assim que os cartazes e cacetetes são baixados.. Respondê-las requer o que eu chamo de uma “revolução de segunda ordem.”

A partir de junho de 2013, muitas cidades brasileiras explodiram em uma onda de protestos de rua. Eles iniciaram por um aumento de sete por cento nas tarifas de ônibus, mas se transformaram em uma declaração mais geral de insatisfação pública com a situação do país: “Basta! “, o público parecia estar dizendo.

Os políticos se esforçaram para compreender e chegar a definições sobre o que estava acontecendo, e tentaram em vão identificar representantes dos manifestantes com quem pudessem falar. Após de milhões de pessoas permanecerem nas ruas por semanas, o aumento da tarifa de ônibus foi revogado, mas muitos brasileiros continuaram suas ações à medida que outros temas eram desdobrados e mais exigências eram feitas.

Muitos comentaristas e ativistas escreveram sobre estas experiências como um ponto de inflexão em potencial no Brasil, e tentaram explicá-las em termos do contexto econômico do país, dos gastos extravagantes para a próxima Copa do Mundo, e do poder das redes sociais para mobilizar manifestações de grandes dimensões.

As fotos dos protestos mostram milhões de pessoas nas ruas, demarcando um momento potencialmente histórico para o país. O que é interessante, para mim, é que estas imagens mostram um padrão comum de protestos de rua no qual a maioria das pessoas está olhando na mesma direção – marchando em linha reta, quase como uma divisão militar em ação. Mas as sociedades como um todo não funcionam dessa maneira (principalmente as democráticas), porque as pessoas não concordam com os detalhes de como a ordem estabelecida deve mudar após os protestos.

O protesto por si só não pode garantir uma visão de longo prazo para um país, de modo que o caminhar em linha reta das manifestações tem que ser re-configuradas em círculos de diálogo e novos padrões de democracia participativa. Isto é o que está acontecendo no Brasil.

Os brasileiros vão continuar a mostrar o seu descontentamento sobre um país que é conhecido por sua corrupção, e pelas enormes lacunas que existem entre ricos e pobres. Mas ao lado dos protestos públicos visíveis algo mais sutil está acontecendo: conversas em espaços públicos sobre a futura direção da sociedade.

Tais conversas representam uma revolução de segunda ordem. Elas têm o potencial para transformar o modo pelo qual a mudança social é construída, permitindo que novas histórias emerjam. E elas convidam os cidadãos a se apropriarem dos espaços públicos, a fim de explorar versões divergentes sobre a trajetória de seu país e formar novas compreensões coletivas.

By @David_EHG

Evento 1000 mesas em Israel

“Círculos de diálogo” como estes têm ocorrido em muitos outros lugares. Em Israel, por exemplo, mais de trinta cidades se reuniram ao redor de 1.000 mesas em 2011 para explorar as questões políticas e sociais que eles enfrentam. O principal espaço de diálogo (uma praça em Tel Aviv) foi transformado em um enorme salão com espaço para 5.000 pessoas. Da mesma forma, durante o tumulto na Grécia, que teve lugar entre 2010 e 2012, o público ocupou a Praça Syntagma, no centro de Atenas. Embora a ocupação não tenha produzido muito diretamente pelo caminho do diálogo, ela abriu caminho para surgirem outros espaços e conversas.

No caso do Brasil, conversas públicas deste tipo foram organizados em quatro grandes cidades, assim como em muitas localidades menores em todo o país. Em Brasília – uma dos primeiras a acolher esses diálogos – a iniciativa surgiu a partir de um grupo de pessoas que queriam explorar o que seria necessário para criar uma ponte entre a situação atual e o futuro que desejavam.

Percebi que seria uma conversa superficial se não tecessemos nossas idéias juntos, disse Sérgio

Em uma recente entrevista comigo, Sérgio Monforte, que estava envolvido em um desses círculos, explicou como o processo começou: “Nós estávamos sentados em plenário em um espaço público próximo ao Congresso Nacional”, disse ele, “e percebi que seria uma conversa superficial se não tecessemos nossas idéias juntos. “Monforte e outros propuseram a criação de pequenos grupos para explorar questões sem temas pré-definidos, e para suscitar idéias de ação. “Nem todos concordaram”, continuou ele, “por isso no início fizemos um grupo paralelo com o plenário.” As idéias foram colhidas para descrever a transição entre “o Brasil de hoje e o Brasil que queremos no futuro”, incluindo “a morte de petróleo “e construção de “redes de comunidades sustentáveis”.

Essas discussões iniciais também produziram uma série de pequenas ações conjuntas, como um vídeo para explicar como as leis são criadas e alteradas no Brasil; um exercício para ajudar as pessoas a conversarem entendendo os pontos de vista de cada um, e propostas sobre como outros grupos poderiam ser apoiados para sediar conversas semelhantes. Como resultado destas propostas, foi criado um guia de metodologia com base na experiência de Tel Aviv. Ele descreve o processo de conversa em grupo chamado World Café, uma tecnologia social que permite conversas acontecerem em uma grande escala, sem suprimir a diversidade de vozes presentes. No final do processo, os resultados da conversa foram apresentados de forma visual.

Por definição, [espaços públicos] é onde um legislador deveria estar – disse Ricardo Young

Em São Paulo, os diálogos ocorreram ao longo da Avenida Paulista, o centro financeiro do país, mas também em um espaço público que há muito havia sido esquecido – dentro assembléia legislativa da cidade. Ricardo Young, vereador da cidade de São Paulo, participou dessa conversa e seus resultados auxiliaram seu trabalho: “diálogos públicos são um instrumento essencial em que o legislador pode expressar suas opiniões e ouvir diferentes pontos de vista sobre a realidade,” ele me disse , “por definição, este é o espaço onde um legislador deveria estar.”

Será que esse processo realmente afetará o futuro do Brasil, uma vez que continue a evoluir? Essa é a pergunta óbvia, e não é possível responder a ela agora. Mas sem algum tipo de discussão pública em larga escala, ela não será respondida de forma democrática.

Václav Havel, escritor, ativista e ex-presidente da República Checa, uma vez observou que “eu realmente vivo em um sistema em que as palavras são capazes de abalar toda a estrutura do governo, onde as palavras podem ser mais poderosas do que dez divisões militares.”

Sem sinais de colapso do regime comunista e pouca esperança no horizonte, Havel e seus amigos se encontravam secretamente para sediar conversas e gerar novas histórias sobre o futuro. Eles se encontravam em cafés subterrâneos e publicavam jornais alternativos . Eles convidavam para o debate e criavam novas idéias e interpretações sobre a política e a economia . Até mesmo os membros do regime comunista achavam uma forma de se juntar a essas conversas . Essas pequenas ações não abalaram o sistema maior diretamente, mas ao longo do tempo uma compreensão coletiva diferente sobre a sociedade checa começou a surgir.

O Brasil de hoje é muito diferente da Tchecoslováquia de Václav Havel sob o regime comunista, mas isso não dilui a importância dos tipos de conversas a que ele estava se referindo. Muito pelo contrário, já que essas conversas deveriam ser muito mais poderosas nos espaços públicos de um Estado democrático. Com o tempo, elas podem até abrir uma oportunidade para transformar a própria democracia, desde as eleições representativas a cada quatro anos até um processo contínuo de diálogo público participativo.

Os protestos de rua não vão e nem devem desaparecer, mas talvez as manifestações do futuro incluam a caminhada de milhões, seguida por milhares de círculos de diálogos. Talvez a definição de novas leis seja precedida de conversas abertas que ocorram em um parque público perto de você, e anfitriadas por quem esteja interessado. Imagine o que poderia acontecer se os representantes políticos fossem se juntar a essas conversas para se encontrarem com seus eleitores face a face. A responsabilidade política não mais seria delegada a poucos. Em vez disso, o público poderia estar mais próximo e se apropriar do processo político.

Sociedades complexas exigem altos níveis de participação pública, e não apenas nas ruas, mas nos espaços onde as idéias e opiniões nascem e são moldadas. Estes espaços poderiam tornar-se laboratórios de engajamento público em um nível totalmente novo, abrindo as portas para uma revolução na democracia.

Quem Manda Nessa Conversa, Afinal?

by Rainbirder

Participei na semana passada da conferência internacional em educação democrática. Pela primeira vez em 20 anos os organizadores resolveram arriscar uma conferência sem painéis e palestrantes e gerar espaço para oficinas paralelas como em um Open Space.

A transição de um formato tradicional para este mais diferente foi controversa. Muita gente compartilhou sentir falta de painéis em que alguém tomava a frente para compartilhar experiências de sucesso ou insucesso, ou para apresentar uma ideia nova e estimulante. Outros olhavam para o programa atônitos – uma quantidade grande de opções os deixava ansiosos.

Quando perguntado do que achava da conferência, disse que este sistema de escolha e espaços abertos era o único tipo de conferência para a qual sentia que valia a pena ir, mas que entendia as frustrações atreladas ao modelo.

A ansiedade frente às opções é mesmo questão de ter estado e acostumar-se a espaços assim. Vale lembrar que estar em uma conferência, em um lugar específico, implica abrir mão de vários outros espaços acontecendo em outros lugares. Sempre vamos fazer escolhas.

Ter experimentado encontros assim no passado, como eram os Fóruns Sociais Mundiais que se espalhavam por toda Porto Alegre, nos faz ficar em paz com onde estamos e aproveitar um fluxo de aprendizado mais tranquilo e profundo.


Já a falta de gente tomando a frente das oficinas foi uma falha. Uma ideia bem intencionada dos organizadores, é verdade, mas uma falha. Em vez de se comprometerem por inteiro com um formato de Open Space, resolveram levantar de antemão, em um fórum online, quais eram os assuntos sobre os quais as pessoas gostariam de conversar e montaram uma grade de oficina com eles, cada uma com um facilitador aleatoriamente apontado.

Uma falha porque não havia nas oficinas ninguém que era realmente o anfitrião da conversa. O tópico, pré-pronto, não tinha uma pessoa por trás que trazia a clareza e curiosidade em uma pergunta, uma experiência, uma ideia.

A falta de uma pessoa comprometida com explorar o conteúdo presente transformou a conversa em um jogo de definições: o que será que realmente quiseram dizer os que pré-escolheram esse tema? Por que mesmo estamos aqui? Com o tempo passado para se definir com clareza do que se tratava o espaço, acabava-se a oficina e a sensação de superficialidade pairava no ar.

Escrevi em outro momento sobre o desconstruir do nosso impulso de ficar sentado em uma sala na qual não estamos tirando proveito da conversa. Isso gerou um convite que em Open Space é representado pela lei dos 2 pés.

Também comentei a importância de se ter um responsável pelo convite e pelo espaço – algo que não aconteceu nesta conferência.

Essa falha talvez seja um reflexo do confundir democracia com responsabilidade diluída, democracia com ser representado. O pré-forum teve seu conteúdo democraticamente escolhido e representado na conferência – não colou.

Faz todo sentido a pessoa poder escolher em que espaço quer estar, ter a oportunidade de ter a conversa que quer ter com um grupo menor e engajado no mesmo micro-tema que ela.

O Anfitrião é aquele que cria as condições que dão vida a um convite.

O que deixa de fazer sentido é não ter o indivíduo ou grupo de pessoas que se responsabiliza pelo convite e cria as condições que dão vida a ele: estou convidando para conversarmos sobre essa pergunta, para debatermos essa experiência ou, simplesmente, estou convidando para que assistam a uma palestra minha.

Não ter um responsável por cuidar do espaço e do convite descaracteriza um espaço intencional de aprendizado. Não é dizer que não se possa aprender em situações não intencionais, muito pelo contrário: talvez tenhamos algumas de nossas experiências mais profundas em espaços e momentos em que menos esperamos. Porém uma conferência é, afinal, um espaço intencional que já convida para uma conversa específica, temática.

Não restrito a espaços intencionais, mas parte dele, mora a importância de nos co-responsabilizarmos pelo aprendizado próprio e tornar-nos responsáveis nos diversos papéis que escolhemos estar, talvez como anfitrião ou como anfitriado, talvez como um dos que convida ou como um dos convidados.

Aprender não admite representatividade – só você pode representar seu caminho de aprendizado e este caminho está intimamente ligado por tornar-se responsável por ele, independente do papel que esteja.

Convidar também requer ser responsável. Só convida quem está imbuído do espírito do tal convite, alguém que, mesmo que convite por um coletivo, não o representa, apenas carrega uma parte fundamental dele.

O conteúdo da conversa está intimamente ligado à capacidade de quem anfitria em trazer o espírito do que se quer conversar. De aí em diante muito do que acontece é belíssimamente incontrolável.

Confiança nos Grupos e em Espaços de Aprendizagem

by ioneelev8

Como resposta a um artigo colocando confiança como central para o processo de sustentabilidade social, recebi como sugestão* a leitura do livro de Rafael Echeverría La empresa emergente, la confianza y los desafíos de la transformación.

foto by ViaMoi

A Confiança É Determinante

A confiança é determinante nas ações de pessoas dividindo um espaço intencional de aprendizagem. Confiança esta que será gerada tanto entre as pessoas de um grupo como na percepção de cada indivíduo sobre si mesmo.

Isso é verdade tanto em grupos onde um processo é mais fechado e dirigido como em um mais aberto e distribuído.

Processo Dirigido versus Distribuído

Num processo de aprendizagem altamente dirigido a confiança se deposita na aposta de competência de uma figura de autoridade como um palestrante ou professor. Neste contexto damos poder de autoridade a quem julgamos competente e até o momento em que essa competência é questionada.

Ainda existem autoridades e estrutura de poder em um processo mais distribuído, sem a figura formal de autoridade. Vale ressaltar que o uso de poder não implica comando e controle ou autoritarismo, mas poder como determinante de como declarações, afirmações e julgamentos de uma pessoa serão recebidos com confiança pelos demais. Essa confiança é construída e des-construída no processo relacional de um grupo.

Vamos Conversar Sobre os Processos de Grupo com Autoridade Distribuída

Como processo relacional, confiança raramente acontece em um curto espaço de tempo. Um grupo que distribui confiança também distribui autoridade na medida em que vê cada participante como co-autor da história do grupo.

Na visão do participante, estar no espaço de co-autoria implica reconhecer seu papel e responsabilidade em um processo de aprendizagem compartilhada.

Estes Grupos de Co-autoria são uma Raridade

Neles a criação das histórias e ações compartilhadas acontece na intersecção das vozes de várias pessoas, em um espaço sempre complexo e susceptível a fatores não explorados ou emergentes. Para chegarmos a grupos de co-autoria temos que passar por um processo em que incertezas e medos em lidar com essa complexidade são recorrentes.

Echeverría cita o sociólogo Niklas Luhmann dizendo que a confiança diminui a complexidade, reduzindo a margem de possibiliades para algo mais simples com o qual conseguimos lidar melhor. Essa complexidade e a incerteza trazida por ela é a grande geradora de ansiedade em processos de grupo.

Um Grupo Lidando com Ansiedade

Uma das formas conhecidas para lidar com a ansiedade é a determinação de um líder no qual depositamos a ‘confiança’ de nos guiar para o caminho desejado.

Essa ‘confiança’ mostra-se em realidade um subterfúgio, um atalho ao verdadeiro confiar através de uma falsa figura de poder, um autor que, ao contar a história como em um monólogo, eventualmente se tornará um eterno herói ou vilão, um líder incompetente ou uma desculpa para a desintegração do próprio grupo.

“Tudo o que você precisa nesta vida são ignorância e confiança; aí o sucesso é certo” – Mark Twain

Novamente com olhos de participante: o medo do incerto é o gerador da figura de liderança que concebemos nos dias de hoje. Confiar nos demais e em si como co-autores tem como pré-requisito a capacidade de entreter em alguns momentos o incerto como algo além de uma simples ameaça.

Essa capacidade é determinante na nossa forma de ação. As pessoas que se tornam competentes em ver incerteza como mais do que ameaça podem interpretar acontecimentos de forma a gerar novas possibilidades de ação no futuro. São pessoas mais criativas e mais adaptáveis às inevitáveis mudanças que ocorrem ao nosso redor.

* Agradeço a Pablo Villoch pela recomendação.

Intervenção a Serviço de Quê?

by One From RM

Acabei de voltar de duas semanas intensas estudando-me e estudando grupos na conferência Tavistock que acontece há 66 anos na Universidade de Leicester.

A conferência tem como uma das suas premissas básicas que grupos trabalham em uma tarefa consciente mas sempre tem um processo inconsciente que ocorre paralelamente. Acessar esse processo inconsciente pode estar a serviço de facilitar o desenvolvimento da tarefa ou do próprio desenvolvimento do grupo e de seus membros.

O papel do facilitador é de prestar atenção e criar hipóteses sobre a narrativa insconsciente do grupo quando ele/a julgar que isso é uma intervenção que serve o grupo em direção a seu objetivo.

Tivemos diversas sessões de trabalho e pude exercitar a formulação destas hipóteses e testá-las com os grupos com os quais trabalhei. Esse exercício pareceu ser uma mistura de atenção aos padrões de fala das pessoas juntamente com as formas de expressão, emoções e o não-verbal.

Foi interessante ver como a narrativa do grupo é influenciada quando alguns padrões são expostos como possibilidade.

Em uma das muitas conversas informais durante a hora do jantar, aprendi sobre as intervenções que não são adequadas.

O contexto era uma conversa sobre racismo onde uma carga de emoções (raivas, frustração, culpa, etc) foi bloqueada por um comentário que racionalmente fazia bastante sentido.

Lembrei dos momentos em que eu fiz o mesmo, expus um comportamento que fechou o espaço para que essas emoções pudessem ser expressadas. Me mostrei sagaz e atrapalhei o processo do grupo.

Ter espaço para expressar raiva pode ser fundamental para a saúde de um grupo. Aprendi que intervenção que racionaliza emoções que precisam ser expressadas, mesmo as verbalmente violentas, estão apenas empurrando as questões para debaixo do tapete.

A questão é: varrer para debaixo do tapete serve melhor o grupo naquele momento? Por vezes sim, mas algumas vezes apenas adia o confronto inevitável com assuntos que ficam vivos narrativa inconsciente.

Essa narrativa inconsciente parece ser a causa de grupos que parecem sempre em conflito sem motivo aparente ou simplesmente apáticos. Trata-se de uma história oculta que sequestra e paralisa o grupo.

Como saber se a intervenção faz sentido? Lembrei da sempre relevante pergunta: ela está a serviço de quê?

Baniram as sacolas plásticas. E agora?

from nbcdfw.com
Bansky e Sacola Tesco

Adoramos a sacolinha!

Sim, eu sou a favor de banirem sacolas plásticas dos supermercados. Mas o que poderia parecer uma decisão óbvia num mundo onde a humanidade entende mais o impacto causado pelo acumular do plástico no ambiente, virou tema de discussão por ter um processo de implementação mal administrado pelo governo municipal.

Esse tipo de proibição tem algumas características similares da decisão do governo de que teríamos que passar a usar cinto de segurança nos automóveis. Todo mundo pode compreender rapidamente porque o uso do cinto e a diminuição de plástico não-reutilizável traz benefícios (a ABIEF, claro, discorda). Como no caso do cinto, mesmo em face a uma mudança compreensível, reclamamos.

Estamos acostumados a pegar um monte de sacola de plástico e no começo vai ter um monte de gente contra mesmo. Sacola de plástico não incomoda muito, mudar o costume sim. Vai passar. Assim como passou nos países onde isso já é lei.

Mas será que é só a quebra de costume que está fazendo as pessoas reclamarem? Eu acho que não. Também pesa o fraco processo de informar e conscientizar o cidadão do porquê das mudanças.

Segundo noticiou a Veja em maio do ano passado, não só teve bastante tempo para que pudéssemos todos saber dessa mudança como existia uma (fraca) forma de divulgação relacionada com o uso de sacolas renováveis. Muito cidadão, que não acompanha o que aprova a câmara municipal, foi pego de surpresa 7 meses depois da lei ter sido aprovada.

O que me parece ter sido mal feito não é a lei (que repito acho que deve estar aí), mas o governo achar que ter uma placa informativa é suficiente para que o consumidor conhecesse e tivesse tempo de discutir o que se discute hoje ANTES da lei entrar em vigor.

E as discussões de que isso é uma forma de supermercados ganharem mais dinheiro? Eu duvido muito. Claro que na mudança de uma política pública a iniciativa privada vai fazer o que gosta, maximizar os lucros. Para ir contra essa palhaçada de usar mudança para encher o bolso basta fazer uma coisa bem simples: desenterra aquela sacola da vovó e leva para o supermercado.

O jornalista André Trigueiro escreveu um artigo que mostra que o país é o paraíso dos sacos plásticos. O pessoal da ABIEF vai ter que aprender a mudar o foco do negócio por que as coisas estão mudando. A empresa Kodak, que não mudou o foco rápido o suficiente com a chegada das câmeras digitais, pediu concordata. O jeito de lidar com o ambiente mudou e com ele a economia.

Sacolas plásticas são um passo. Haverá mais.

Agora me diz, o que você acha?

Por Quê #Occupy? – Além da Democracia Política e do Anti-Capitalismo

from wikipedia

#Occupy Poster

Estou bem isolado dos centros urbanos. Tudo o que eu tenho ouvido sobre #Occupy tem sido de amigos e da mídia. Tenho perguntado sobre o local, as conversas e o sentimento de estar lá, tudo para poder entender um pouco mais.

Apenas com essas impressões, imaginei um #Occupy que talvez não seja o que é, mas um que com certeza pode ser. Imaginei as pessoas ocupando espaços públicos para gerar conversas e emitir opiniões sobre temas que são do interesse público, mas que muitas vezes se escondem em salas de reunião privadas.

Imaginei uma forma participativa e crítica de entendermos como funciona nossa sociedade. O que talvez seja para muitos um espaço de protesto, vejo também como um espaço de entendimento. Entendimento porque as conversas não necessariamente tem que trazer uma alternativa pronta ou criá-la em alguns meses, mas são conversas que exploram o novo e não só criticam o velho.

Mesmo tendo causa aparentemente difusa, #Occupy é bem diferente de rebeldes sem causa – os sintomas geradores do movimento estão claros (assim como está não pode ficar!) e a causa e as alternativas estão sendo discutidas (o que podemos fazer de diferente?).

O grande poder está nas pessoas terem um espaço para se perguntar se essa democracia é realidade ou ilusão.

Pensei comigo – nunca antes na história deste planeta (ops!) tivemos espaços públicos sincronizados para conversar sobre o funcionamento da nossa sociedade e seu modus operandi. Nunca tivemos espaços onde os participantes de uma democracia política sentem que pode ser que haja algo mais a participar, algo mais a entender e algo mais a intervir diretamente.

E estes espaços não são uma afronta direta à democracia, mas com certeza são uma afronta à “ilusão democrática”, a idéia de que participação se restringe à esfera política, traduzida na linguagem atual na forma de “voto consciente” ou fazer parte de um partido ou causa política.

Acredito que o grande poder de #Occupy vai além da crítica ao capitalismo e das plataformas de “outros mundos possíveis” do Fórum Social Mundial. O grande poder está nas pessoas terem um espaço para se perguntar se essa democracia é realidade ou ilusão. Pessoas que estão lá ou acompanhando com interesse têm seus motivos mais diversos para estarem descontentes com o ir e vir da democracia política atual.

E o que acontece se nos desiludimos?

Impossível prever o que pode acontecer quando finalmente estivermos desiludidos com o que talvez o futuro chame de modelo restrito de participação. Para ir além, no entanto, não basta a desilusão de um grupo ou uma bandeira política, é essencial nos desiludirmos em conjunto.

#Occupy parece ser a preparação do coletivo para criar uma nova forma de participação, uma forma que tenha a nossa cara e ao mesmo tempo a de ninguém. Talvez seja a primeira forma de outras diversas que vão redefinir como nos organizamos em sociedade.

Vivemos em Rede ou Comunidade?

by docoverachiever


Aqueles espaços em que vivemos, os chamamos de rede ou comunidade?
Vou utilizar redes e comunidades como forma de explorar a diferença entre um espaço funcional e um relacional. As ‘definições’ são inspiradas no livro de John Taylor Gatto ‘Dumbing us down’¹.

Redes são espaços funcionais

Redes são ambientes de função – são ambientes que conectam dois momentos através de um ato de trans-formação. Nos vemos em ambientes grupais de função porque eles contém algo que é de nosso interesse e em que nos dispomos a interagir com outras pessoas para explora-lo.

Em ambientes de função o nosso interesse é restrito a uma família de coisas que fazem parte de nossas inquietudes no presente.

A relação fundamental com este espaço é a de propósito, seja ele bem definido ou não. Faço parte da rede dos colegas do clube, rede do grupo de trabalho, redes de discussão, etc. Em cada uma delas podemos identificar nosso interesse e o que fazemos (recebemos ou contribuimos) enquanto em contato com elas, qual a função, o propósito de estarmos parte.

A flexibilidade e oportunidade de contribuir para ambientes em rede certamente aumentou exponencialmente por ajuda tecnológica. Só que acredito que a tecnologia foi além: serviu de inspiração.
Inspirou por ter se mostrado mais dinâmica do que antigas máquinas funcionais isoladas. Além de falarmos de ambientes de redes virtuais, nos inspiramos para solidificar uma forma de organização em grupo que seja mais distribuída que concentrada², retirando a tradição hierárquica que herdamos na nossa forma de organizar-nos.

Em ambientes de função o nosso interesse é restrito a uma família de coisas que fazem parte de nossas inquietudes no presente. A perda de relação entre a função do espaço e nossa inquietude implica no meu desligamento da rede, seja ele abrupto ou gradual. Se pertencer à rede não fizer mais sentido, basta deixar de fazer parte dela.

Como um espaço funcional, redes são espaços de aprendizado focado e/ou grupos de trabalho que geram resultados, são oportunidades de recolher e trabalhar informação e de gerar nova linguagem e/ou traduzir linguagem em acontecimento.

Comunidades são espaços relacionais

Comunidades são espaços de relação – são ambientes que conectam consciências sobre o mundo. Estar em comunidade é estar no espaço de identificar nosso ser e consciência através da diversidade de seres e consciências com as quais nos relacionamos.

Em ambientes de relação o nosso interesse é intrínseco a nossa condição humana.

Diferente de existir para uma função, comunidades existem do encontrar de mundos em sua completude. Se função existe, é a função fundamental de ser, que não é definida por um propósito em si, mas talvez pela eterna busca de um. Dois seres humanos interagem seus mundos completos em comunidade e da relação criam outros mundos completos.

Um espaço criado pelo interesse de uma pessoa por parte do mundo do outro não pode constituir-se um espaço relacional. O estar presente em um espaço somente com uma parte de si mesmo é não estar realmente presente em um espaço relacional.

Papéis sociais que são característicos de espaços funcionais são relevantes no encontro relacional somente na medida em proporcionam uma diversidade de mundos. É como se retirássemos nossos chapéus de mãe, empregado, atleta ou músico, mas não apagássemos a vivência destes papéis como constituintes de nosso mundo enquanto em relação com o outro.

Em ambientes de relação o nosso interesse é intrínseco a nossa condição humana. Deixar de estar em real contato com outros mundos degenera nossa capacidade de ser – definimos nosso ser através de um mundo que existe em relação. Deixar uma comunidade não é tão simples: não existe criação de sentido de mundo se não existirmos em comunidade.

Viajando entre espaços funcionais e relacionais

Fica bastante clara a relevância de ambos os espaços funcionais e relacionais. Imagino que nenhum espaço deva ter a característica de ser um espaço puramente funcional ou relacional, mas vejo o quanto é mais comum termos consciência dos espaços funcionais no nosso dia a dia e pouco dos relacionais.

Em criando e desenhando espaços funcionais, muitas vezes vemos emergir pequenos espaços relacionais que geram uma sensação de renovação e clareza. Isso é mais do que sensação – realmente novos mundos foram criados .

Criar ou simplesmente poder estar em um espaço relacional requer mais do que um designer ou um artista, requer um mundo em contato com outros mundos. Ser artista neste espaço é não poder estar nele – temos que ser o que somos e estar onde estamos.

Lugar para ler sobre essas coisas

Dumbing Us Down
John Taylor Gatto; New Society Publishers 2005

Disponível em português [PT]:  Compreender a escola de hoje: O Currículo Oculto da Escolaridade Obrigatória – Porto Editora
  • ² Visite a comunidade online da Escola de Redes E=R para conhecer mais sobre redes sociais.
  • ‘Humberto Maturana e o espaço relacional da construção do conhecimento’ por Adriano J. H. Vieira. Disponível online pela Revista Humanitates.
  • ‘Por um novo conceito de comunidade: redes sociais, comunidades pessoais, inteligência coletiva’ por Rogério da Costa. Disponível online neste link.
  • Community VS Network‘ por Leon Liu (em inglês).
  • A amizade Facebook‘ por Zygmunt Bauman (vídeo legendado).