as correntes do ser humano

PRINCIPLE 4

As none by trave
ling over known
lands can find out
the unknown. So
from already ac-
quired knowledge
Man could not ac
quire more. there
fore an universal
Poetic Genius exists

– William Blake

– Você diz que o ser humano está acorrentado por ele mesmo. Por quê?

Uma das linhas das minhas metas do milênio é a humildade. Hoje o ser humano está cada vez mais armado na direção de sua arrogância que acha que tudo pode, tudo sabe e tudo resolve. Nessa onda, humildade é algo que podemos exercitar. A arrogância nos acorrenta.
Começamos com tirando esse negócio de ser humano no centro, já que centro é coisa parada. Sim à poesia e à periferia.

– E isso não tira a responsabilidade da raça humana?

Boa pergunta. Entendo que quem tem que arregaçar as mangas somos nós, até porque quem criou essas mangas aí (e também tudo o que classificamos de ‘problemas da humanidade’) fomos nós mesmos, mas daí a achar que nós somos o centro do mundo, razão da existência, blá blá blá… é demais, não? E tem muita gente que acha.

E alguns, se não todos, são pessoas que têm uma maravilhosa intenção e ideal, mas olhando para nós mesmos podemos ser tão arrogantes destruindo a natureza quanto lutando para preserva-la, por exemplo. Claro que o conteúdo é importante, mas por caminhos iguais não se chega a um lugar diferente. Tentar salvar a natureza por caminhos de arrogância não nos permite realmente harmonizarmos com ela.

Há algum tempo atrás tinha conversas com um grande amigo que já não vejo mais: ele me dizia crer que o nosso papel era a busca pela verdade (como Gandhi, aliás). Só agora consigo entender um pouco isso. Buscar coisas novas – a verdade – é papel do ser humano. Já encontra-la talvez não seja.

– Esse papel seria de um Deus? Seria um contraponto a Nietzsche?

Não exatamente, quando Nietzsche coloca que Deus está morto, está na verdade matando o ícone Deus, o Deus metafísico, não o Divino. Ele mesmo coloca a conexão inseparável de homem e Divino.

Ao contrário de Nietzsche não falo na inexistência da verdade, apesar de concordar que filosoficamente temos diversas verdades e que procura-la possa significar afastar-se dela. Apenas pergunto: e qual o problema, para o que genuinamente procura, de afastar-se dela?

Assim, não que seja a verdade que prende o ser humano, mas simplesmente a certeza de tê-la encontrado. Porque se você está na verdade e a questiona, deve deixa-la ir e encontra-la de novo mais para frente.

– Qual poderia ser a imagem desta procura?

O ser humano pedala uma bicicleta que diz ser sua imagem neste mundo. A bicicleta é corpo, alma, relações e uns algo mais. Pedalar é o ato da busca e a direção é a que atrai, mutante, constante.
O buscador acredita no caminho e dele se alimenta.
O arrogante pára achando que já chegou.

De Mateus, Capítulo 13, versículos 1-13:

“No mesmo dia, tendo Jesus saído de casa, sentou-se à beira do mar;
e reuniram-se a ele grandes multidões, de modo que entrou num barco, e se sentou; e todo o povo estava em pé na praia.
E falou-lhes muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear.
e quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e comeram.
E outra parte caiu em lugares pedregosos, onde não havia muita terra: e logo nasceu, porque não tinha terra profunda;
mas, saindo o sol, queimou-se e, por não ter raiz, secou-se.
E outra caiu entre espinhos; e os espinhos cresceram e a sufocaram.
Mas outra caiu em boa terra, e dava fruto, um a cem, outro a sessenta e outro a trinta por um.
Quem tem ouvidos, ouça.
E chegando-se a ele os discípulos, perguntaram-lhe: Por que lhes falas por parábolas?
Respondeu-lhes Jesus: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado;
pois ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado.
Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e ouvindo, não ouvem nem entendem.”

De Rumi:

“Let yourself be silently drawn
by the stronger pull of what you really love.”