Se a Escola Fosse Mais Capitalista

Interessante que minhas atuais leituras sobre educação tem se conectado com alguns dos vídeos que pipocaram nas minhas redes sociais recentemente. Um deles é sobre as inovações gerenciais do grupo Semco, comandadas ideologicamente por Ricardo Semler.

Bem no final do vídeo abaixo, certamente um exemplo de gerência compartilhada de sucesso, é citado o impacto de tais inovações na criação da Escola Lumiar em São Paulo.

httpv://www.youtube.com/watch?v=gG3HPX0D2mU

O que eu achei interessante foi a possível interpretação de um paralelo no vídeo: “if the sales don’t happen, the business unit ceases to exist; if the student doesn’t learn anything, they really don’t have a capacity to go out into the world…” –> “se as vendas não acontecem, a unidade de negócio deixa de existir; se o estudante não aprende nada, ele não tem a capacidade de sair para o mundo…”

Essa interpretação é péssima – está claro que se uma unidade de negócio está nas mãos dos colaboradores e portanto a responsabilidade é (no mínimo) compartilhada com eles, existe uma motivação clara entre a atuação no negócio e a continuidade, trabalhabilidade e sustentação do colaborador e da empresa.

Isso nem de longe é verdade em uma escola. Por mais que existam motivações intrínsecas para aprender, do tipo curiosidades ou percepções de aplicações do que aprendeu a curto e médio prazo, isso não acontece com todos os alunos e nem a todo momento para um indivíduo.

Uma organização que se monta com o objetivo central de gerar aprendizagem é uma organização fadada ao fracasso porque simplesmente não é verdade que o aluno tenha que gerar aprendizagem para si para então sair para o mundo. Se esse aprendizado está fadado a acontecer é porque ele vive e se relaciona, o que pouco tem a ver com a instituição escolar apesar de se conectar com seus integrantes.

Não existe atualização de currículo ou super-professor que tenha o poder de gerar uma constante motivação para aprender. Aprender nos padrões escolares não implica nenhuma motivação de continuidade aparente para uma criança de 0 a 14 anos, idade dos estudantes da Lumiar.

Simplesmente a pressão de gerar esse resultado não existe até que alguém a crie através de cobranças artificiais, não relacionadas à vida da criança, como exames ou o vestibular. Só nestes momentos uma escola é como uma empresa, só aí o capitalismo funciona bem.

Gerar essa pressão não deve estar nos objetivos da Lumiar como está em uma aula de cursinho – colocar o aprender em uma escola como o balanço trimestral de uma empresa é, no mínimo, confundir o que move e define as duas instituições em uma sociedade.

Se a escola fosse mais capitalista, talvez ‘the caring capitalist‘ fizesse mais sentido. Para falar a verdade, se a escola fosse mais como uma empresa muitos dos problemas destas instituições estariam resolvidos. Os progressistas brigariam porque o romanticismo do aprender pela motivação do aprendente morreria, os conservacionistas entrariam em parafuso porque as pessoas iam aprender o que fizesse sentido para elas e não o que eles gostariam que elas aprendessem.


No documento linkado abaixo, Sasha Sidorkin argumenta que escolarização não só é uma atividade capitalista como pode ser considerada trabalho infantil.

“Para se sair bem na economia de hoje, o capitalista precisa convencer os trabalhadores a gastar longos anos na escola se preparando para o trabalho do futuro.”*