gente pode ser coisa, mas coisa não pode ser gente

Até fica um pouco repetitivo me ouvir falar que os conteúdos sempre pretendem avançar muito mais do que os processos e que quando os processos viram conteúdo, são logo metodologias ou, mais na moda, tecnologias sociais. Ser espontâneo e curioso agora é habilidade para dar suporte à mais nova tecnologia, e você pode se treinar para ser espontâneo e curioso. É, tem curso sim. Curso não, workshop.

Desponta que somos melhores na relação com as coisas que com as pessoas. Acho que parte porque colocamos mais energia na relação com as coisas mesmo, mas também pelo fato de gente pode ser coisa, mas coisa não pode ser gente. Um pode olhar o outro como coisa, um pode olhar o outro como gente. Coisa, por outro lado, não vê. Coisa deve estar pouco se lixando para essa conversa toda.

Como faz para reconhecer gente no meio de tanta coisa?

Ouvi hoje uma história simples sobre educar e aprender, que devia tratar de gente, mas não trata. Em uma escola, num evento esperado por toda comunidade, meninos e meninas de sete anos receberam ontem 17 livros texto para estudarem durante o ano. Tem um bom tanto de instruções e exercícios variando de matemática a música.

Agora… em que mundo vive esse pessoal? Com tanta coisa rolando, quando é que os meninos perguntam as coisas que os mais velhinhos não tinham pensado e escrito nos tais livros? Quer recriação do velho mais efetiva do que repetir sem ter tempo para explorar?

Parece óbvio? Mas não é. Isso porque ainda não se entendeu que para manter uma coisa, tem que explora-la de novo, não repeti-la. O ato de manter requer tanta energia quanto o de criar, porque os dois são fundamentalmente o mesmo. Se isso vale para criar e manter coisas, imagina o que pode significar para criar e manter gente.

Tratar gente como gente, no mundo de hoje, requer colocar atenção na relação, vincular-se na interação com o outro. Requer manter por recriação e criar por conservação. Precisamos esquecer mais as coisas para que exista energia suficiente para conhecermos gente de verdade.