Qual é a Graça? A Vergonha do Verdadeiro Humor

Uma das coisas que eu vejo mais comentada nas redes sociais e nos jornais vindo do Brasil nas últimas semanas se relaciona com nosso constante humorismo chinfrim.  Não que ele seja novidade, sempre rolou, mas atualmente tem tido mais mídia e discussão. Uma coisa continua igual: não só seguimos assistindo ou lendo um péssimo humor como ainda achamos sem graça quem reclama.

A Vergonha do Verdadeiro Humor

Nunca consegui entender como é que achavam graça dos programas do tal do CQC. Lembro que muitos meses depois de eles irem ao ar eu vi um dos programas do youtube – mais ou menos assim: os integrantes do programa doam uma televisão para uma secretaria de educação de uma cidade para depois darem uma de repórter investigativo mostrando a corrupção do lugar.

O mais inteligente do programa-baixaria é o que está por trás do óbvio – claro que ninguém em bom juízo vai dizer que corrupção tudo bem. Então ao fazer o programa os caras estão prestando um serviço contra a corrupção, não é? Pois é, não acho – nada de errado em mostrar os podres do país, mas os problemas que temos não são entretenimento para serem vendidos como tal. Assistia o programa triste porque se rouba, mas mais triste porque se vende a roubalheira como humor. O Zé, que não rouba, compra a roubalheira pela televisão.

Passa alguns anos e esse mesmo tipo de babaca faz uma piada que é infame para um certo grupo de pessoas e a coisa muda: o humorista passa de engraçado a preconceituoso. Se você não faz parte de nenhum grupo (ainda) que se sente insultado, ótimo – espere até quando o preconceito ou o mal gosto for com você.

mas o humor tem a capacidade de gerar tantas novas possibilidades de quebrar o status quo, para que usá-lo para ser válvula de escape de um preconceito que é o status quo?

Vi essa reportagem na Folha de S. Paulo hoje. Não cheguei a ver os vídeos do programa da Globo, mas li os comentários com interesse. Veja lá. Também não acho que o programa tem o poder de gerar os abusos sofridos pela menina na reportagem – e muito menos que se trata de proibir que se transmita a porcaria televisiva. Se ela está lá é porque tem gente que compra.

O que me impressiona é que as pessoas querem ver programas que retratam preconceitos e salafrarismo de forma jocosa, mas ai de você se ousar dizer que elas são preconceituosas. Voam no seu pescoço como se fosse insulto mortal.

Não sou a favor da seriedade de todas as coisas – acho que temos que fazer piada de nós mesmos e não nos levar tão a sério – mas o humor tem a capacidade de gerar tantas novas possibilidades de quebrar o status quo, para que usá-lo para ser válvula de escape de um preconceito que é o status quo? Piada assim é a vergonha do verdadeiro humor.

Eu consigo imaginar um quadro como esse fazendo piada preconceituosa sobre o tema da reportagem. Não sei se fez, mas nem interessa. O que interessa é como damos energia para esse tipo de piadas e ao mesmo tempo ficamos horrorizados quando a piada toca na nossa casa, fala de algo que para a gente não é engraçado. A verdade é que condenamos estes preconceitos na luz do dia, mas de noite consumimos racismo e sexismo na forma de humor.

Tudo bem se formos a favor da liberdade de expressão e achar que tudo pode ser dito – o que não está nada bem é ser a favor da liberdade e seguir comprando os mesmos preconceitos de sempre mascarados de humor.

Humor de Verdade e o nosso Carnaval

Tem tanta coisa no nosso país que é Humor de verdade. O Carnaval, não aquele da TV, mas o da rua, é um momento de festejar de igual para igual, de propor coisas diferentes pelo ridículo, pelo absurdo, pela brincadeira e o divertido. Tem Humorista que é de morrer de rir – que tira o ser humano do mesmismo e mostra oportunidades de algo novo que só aparece quando a gente sai do sério.

O Carnaval também é responsável por fornecer uma visão alternativa positiva. Não é simplesmente uma desconstrução da cultura dominante, mas uma forma alternativa de viver com base em um padrão de jogo/brincadeira. Pressupõe uma humanidade construída de outra forma, como uma utopia da abundância e da liberdade. O Carnaval elimina as barreiras entre as pessoas criadas por hierarquias, substituindo-as por uma visão de cooperação mútua e igualdade.

Se ao menos fossemos rir de nossos preconceitos ao invés de rirmos com eles…

Deve-se acrescentar, no entanto, que nem todo ato carnavalesco é emancipatório, porque às vezes ele pode desinibir desejos reativos decorrentes do sistema. [A importância do Carnaval] é por vezes utilizada para defender textos que reproduzem os valores dominantes, mas os faz de um modo ‘irônico’ ou ‘humorístico’. Isso acontece devido às camadas de proibições: o sistema muitas vezes promove algo (como o sexismo), mas ao mesmo tempo inibe a sua expressão irrestrita.

Citações de: Bakhtin: Carnival against Capital, Carnival against Power

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